Abrir uma cena no ponto certo

· Roberto Sirolo · 4 min de leitura

O ponto em que uma cena começa decide metade do seu ritmo. As cenas que "não arrancam", que parecem lentas mesmo quando depois acontece algo, quase sempre têm o mesmo defeito: começaram cedo demais, antes do momento que conta. Corrigir isso é uma das operações de revisão com a melhor relação entre esforço e resultado.

Entrar tarde: o princípio de base

A regra clássica — "entra tarde, sai cedo" — vale sobretudo para o início. Entrar tarde significa abrir a cena o mais perto possível do momento em que algo muda: uma decisão, um conflito, uma revelação, a entrada de um elemento novo. Tudo o que vem antes — o personagem que se prepara, que chega, que se senta — é preâmbulo, e o leitor atravessa isso à espera de que comece a sério.

Não é preciso explicar como os personagens chegaram ali: o leitor dá isso por garantido.

O que pular: chegadas, cumprimentos, conversa fiada

Três coisas quase sempre podem ser cortadas do início de uma cena. As chegadas: "Abriu a porta, entrou, pendurou o casaco, olhou em volta." Comece a partir de depois. Os cumprimentos: "«Oi.» «Oi, como vai?» «Bem, e você?»" — a menos que o modo como se cumprimentam diga algo. A conversa fiada: o diálogo de aquecimento antes do tema de verdade. Se a cena é um confronto sobre a traição, comece perto da traição, não do café oferecido.

O "pigarrear" inicial

Muitas cenas abrem com uma ou duas frases em que o autor está limpando a garganta: uma observação genérica sobre o tempo, um resumo do que o personagem sente, uma frase de cenário que se poderia pôr em qualquer lugar. São as frases escritas para pegar impulso. Servem a você para entrar na cena, não ao leitor para lê-la, e na revisão vão embora quase sempre.

O sinal é que a segunda ou a terceira frase poderia ser a primeira sem que se perdesse nada.

O teste do primeiro parágrafo

Um teste rápido para aplicar a cada cena na revisão: apague o primeiro parágrafo e leia a cena assim. Ela perde algo necessário? Quase nunca. Na maioria das vezes arranca mais forte, e a informação contida no parágrafo cortado ou não era necessária ou pode ser recuperada mais adiante numa linha.

Faça como teste sistemático, não como escolha caso a caso: a porcentagem de cenas que melhoram é alta.

Quando uma abertura lenta é justificada

Há casos em que vale a pena abrir devagar: quando a cena introduz um lugar novo que o leitor tem de visualizar, quando muda o ponto de vista e é preciso orientar, quando a lentidão é um contraste procurado antes de uma aceleração. Mesmo aí, porém, "devagar" não quer dizer "conversa fiada": quer dizer descrição ou interioridade que fazem um trabalho, não espera em vazio.

Encontrar o arranque na revisão

O arranque certo é difícil de ver enquanto você escreve a cena, porque nesse momento você precisa do preâmbulo para entrar nela. Vê-se depois, com a cena terminada, relendo de cima e perguntando "de onde começa de verdade?". No NovLore o histórico de versões congela o capítulo antes da modificação, então você pode cortar a abertura, tentar começar três frases mais adiante, e comparar com a versão anterior para verificar que não perdeu uma informação necessária.

Perguntas frequentes

Se eu cortar a chegada, como faço para que se entenda onde a cena se passa?

Com um detalhe dentro da ação, não com um parágrafo de preparação. "Afastou o prato ainda cheio" diz que estão à mesa sem descrever a entrada na cozinha. O cenário se distribui pela cena, não se põe todo na frente.

Vale também para o primeiro capítulo do livro?

Sim, e aí conta mais: o primeiro capítulo tem menos margem do que nenhum. Também o início do livro deve abrir perto de uma mudança, não com páginas de vida normal antes do evento que põe a história em movimento.

E se a cena não tem um "momento que muda" claro?

Então o problema pode não ser o arranque mas a cena em si: se nada muda do início ao fim, talvez não seja uma cena mas uma ligação, e é preciso encurtá-la a poucas linhas ou fundi-la com a vizinha.

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