Cortar um romance longo demais

· Roberto Sirolo · 3 min de leitura

Muitos primeiros rascunhos têm o dobro do tamanho que deveriam ter. Não é um defeito de quem escreve: no rascunho a gente explora, testa, escreve a mesma cena três vezes para entender como ela funciona. O problema vem depois, quando o manuscrito precisa ficar legível e cada página parece indispensável.

Por que começar de cima

A tentação é começar pelas frases: tirar um adjetivo aqui, um advérbio ali. É um trabalho longo que rende pouco: em um romance de cem mil palavras, você ganha, com muito cuidado, uns dez por cento. Tirar uma subtrama que não serve libera muito mais de uma vez só.

A ordem certa é a mesma da revisão: primeiro a estrutura, depois as cenas e, por último, as frases.

Nível 1: tramas e cenas

Faça a lista das cenas, uma linha para cada uma, com o que muda. Depois pergunte, para cada uma:

  • se eu tirar, o que se perde? Se a resposta for "nada" ou "um pouco de atmosfera", ela é candidata;
  • ela faz o mesmo trabalho que outra cena? Duas cenas que mostram a mesma tensão entre os mesmos personagens muitas vezes podem virar uma só;
  • a subtrama serve ao tema ou à trama principal? Se ela corre em paralelo sem nunca tocar a principal, pesa sem acrescentar.

As cenas de "preparação" (o personagem que acorda, se veste, sai de casa) costumam ser as primeiras a sair: o leitor não precisa delas para entender.

Nível 2: personagens e informações

  • Personagens que fazem o mesmo trabalho: dois amigos do protagonista com a mesma função podem virar um só, mais rico.
  • Informação repetida: o leitor descobre algo, depois um personagem conta para outro, depois o protagonista pensa nisso de novo. Uma vez basta.
  • Contexto e ambientação: as partes de mundo, história ou explicação que servem para você saber, mas de que o leitor não precisa para entender.

Nível 3: as frases

Só neste ponto se trabalha a prosa: frases que dizem a mesma coisa duas vezes, conversas de cortesia, gestos acompanhando cada fala, aberturas de cena lentas demais. Aqui os cortes são pequenos, mas em um livro inteiro deixam o texto mais ágil.

Cortar sem sofrer

O bloqueio emocional costuma ser mais forte que o técnico: aquela cena custou uma semana, e você gosta daquela frase. Dois truques ajudam:

  • guarde tudo o que você corta, em um arquivo ou em uma versão salva. Saber que não se perdeu torna o corte muito mais fácil, e quase nunca se volta para buscar;
  • leia o capítulo sem a cena. Muitas vezes, só assim você percebe que o capítulo funciona melhor.

Qual deve ser o tamanho final?

Depende do gênero e do público, e as referências de mercado ajudam a se orientar. Mas a pergunta de verdade é outra: cada página mantém o leitor dentro da história? Um livro longo em que cada cena conta se sustenta; um livro curto cheio de vazios, não.

Na NovLore

Antes de um corte importante, salve uma versão do capítulo pelo histórico: o texto completo fica guardado, e você pode reabri-lo ou recuperar um trecho a qualquer momento. A estrutura do livro, com capítulos que podem ser movidos, ajuda a ver onde duas cenas podem ser fundidas.

Perguntas frequentes

Por onde começo se tudo parece importante?

Pela lista de cenas, uma linha para cada. Colocado por escrito, o livro mostra na hora as repetições e os trechos em que nada acontece, que se escondem em uma página cheia.

Cortar faz perder a voz?

Não, se você cortar primeiro cenas e repetições. A voz vive no jeito de contar, não na quantidade de palavras. O risco só aparece quando cada frase é enxugada de forma mecânica, até ficar sem personalidade.

Como sei que já cortei o suficiente?

Quando, ao reler, você não encontra mais pontos em que dá vontade de pular. Um leitor de fora também ajuda: peça que ele marque onde ficou entediado.

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O NovLore é o estúdio de escrita onde a estrutura e o texto da sua obra vivem no mesmo lugar.