Escrever para crianças sem tratá-las como bobas
Leitores mais jovens reconhecem rapidinho quando um autor os trata com condescendência, mesmo sem saber dizer exatamente o que os incomoda. A diferença entre um livro que funciona e um que não funciona, nessa faixa, costuma estar no respeito, não na dificuldade.
Explicar demais é pior do que explicar de menos
Um erro comum é acrescentar explicações desnecessárias depois de uma ação ou de um diálogo, com medo de que o leitor não entenda. Se um personagem bate a porta e o autor acrescenta "ele estava com raiva", está dizendo ao leitor algo que a ação já tinha comunicado sozinha. Os leitores, mesmo os mais novos, captam o subtexto mais vezes do que os autores esperam: subestimá-los sistematicamente é uma forma de condescendência.
As consequências reais não devem ser suavizadas a qualquer custo
Um livro infantojuvenil que resolve toda dificuldade sem nenhum custo real, sem perdas, sem erros que deixem marca, sem consequências que durem, comunica ao leitor que os problemas reais dele, que muitas vezes têm consequências reais, não são levados a sério pelo livro. Isso não significa que todo livro precise terminar mal: significa que as consequências, quando existem, precisam ter peso real na história.
O vocabulário se adapta à idade, a complexidade do pensamento não
Existe uma diferença importante entre simplificar o vocabulário, algo razoável e necessário conforme a faixa etária, e simplificar a complexidade moral ou emocional da história. Um livro middle grade pode usar palavras comuns para contar um dilema ético complexo; um vocabulário mais simples não exige necessariamente pensamentos mais simples.
Falar com o leitor em vez de com o personagem quebra a imersão
Outro sinal de condescendência é quando a voz narradora parece se dirigir diretamente ao leitor para tranquilizá-lo ou guiá-lo, em vez de ficar dentro da experiência do personagem. Frases como "como você já deve ter percebido" ou comentários que saem da história para explicar uma moral quebram a ilusão narrativa de um jeito que os leitores mais jovens percebem tanto quanto os adultos, talvez mais.
O humor funciona melhor do que a simplificação
Muitos autores, com medo de serem difíceis demais, acabam ficando sem graça. O humor, que os leitores mais jovens apreciam tanto ou mais do que os adultos, costuma ser uma ferramenta mais eficaz do que a simplificação para tornar um livro acessível sem baixar o nível dele: faz o leitor trabalhar para entender a piada, em vez de entregar tudo mastigado.
Perguntas frequentes
Como sei se estou tratando meus leitores como bobos sem perceber?
Fazer o manuscrito ser lido por leitores de verdade da faixa etária alvo, não só por adultos, é o jeito mais confiável: as crianças notam a condescendência mais rápido do que os leitores adultos, que tendem a projetar suas próprias expectativas sobre o que "deveria" funcionar.
É possível tratar temas como morte ou violência num livro middle grade?
Sim, e é comum fazer isso: a diferença em relação ao young adult está mais na perspectiva e na resolução do que no tema em si. Muitos livros middle grade clássicos abordam temas bem sérios com uma linguagem acessível e um final que devolve uma sensação de segurança.
Quanto conta a opinião de um editor especializado em literatura infantojuvenil?
Conta muito, porque essa faixa etária tem convenções específicas que um editor experiente reconhece rapidamente, tanto nos excessos de simplificação quanto nos de complexidade fora de lugar para a idade declarada.