O conflito, motor da história
Uma história em que todo mundo se dá bem e cada desejo se realiza na primeira tentativa não é uma história: é um relatório. O conflito é o motor que faz as páginas virarem, porque cria incerteza, e a incerteza cria a vontade de saber como termina. Mas "conflito" é uma palavra que faz pensar em gritos e tiros, e isso desvia do caminho.
Conflito não quer dizer briga
Na ficção, conflito é tudo o que se coloca entre um personagem e o objetivo dele. Uma mãe que quer proteger o filho sem deixá-lo perceber que está doente vive um conflito intenso, mesmo sem nunca levantar a voz. Dois apaixonados que não podem ficar juntos estão em conflito com as circunstâncias, não um com o outro.
Um personagem que quer algo e encontra resistência: é só isso. As formas que essa resistência pode assumir são infinitas.
Os tipos de conflito
- Com outra pessoa: o antagonista, o rival, o pai ou a mãe, o parceiro. É o mais imediato, porque tem um rosto.
- Com a sociedade: leis, convenções, instituições, preconceitos que impedem o personagem de conseguir o que quer.
- Com a natureza ou as circunstâncias: uma tempestade, uma doença, a distância, o tempo que está acabando.
- Consigo mesmo: dois desejos incompatíveis, um medo, uma culpa, uma ideia errada sobre si.
O conflito interno dá sentido ao externo
As histórias que ficam na memória quase sempre são aquelas em que o conflito externo pressiona o conflito interno. Um detetive que precisa resolver um caso é uma trama; um detetive que precisa resolver um caso em que o irmão está envolvido e, para isso, tem de escolher entre a lealdade e a verdade, é uma história.
Uma pergunta útil: o que precisa mudar dentro do protagonista para que ele possa vencer lá fora? Quando existe uma resposta, os dois conflitos se alimentam.
Fazer crescer
Um conflito que fica sempre na mesma intensidade cansa o leitor. Ele precisa subir:
- obstáculos mais difíceis: cada tentativa fracassada deixa a próxima mais arriscada;
- mais em jogo: primeiro se arrisca o emprego, depois a reputação, depois a família;
- menos saídas: as alternativas vão se fechando, até sobrar uma única escolha, a mais cara.
O ponto mais alto é o momento em que o protagonista precisa escolher, e a escolha revela quem ele realmente é.
Conflito em cada cena
O conflito não vive só na trama geral: cada cena precisa dele, mesmo em escala pequena. Em cada cena alguém quer alguma coisa (uma informação, um perdão, cinco minutos de paz) e algo dificulta isso. Uma cena em que ninguém quer nada específico quase sempre é uma cena parada.
O risco do conflito artificial
Conflito não se inventa à força. Dois personagens brigando sem motivo só para "criar tensão", ou um obstáculo que surge do nada, soam falsos. O conflito convincente nasce do que os personagens querem: se os desejos e as personalidades estiverem claros, os choques aparecem sozinhos.
Perguntas frequentes
Uma história pode ter só conflito interno?
Sim, mas é preciso uma situação externa que o traga à superfície. Até o romance mais intimista coloca o personagem diante de acontecimentos e pessoas que o obrigam a encarar a si mesmo.
Quantos conflitos um romance deve ter?
Um principal, que sustenta o livro inteiro, e vários conflitos menores nas subtramas e nas cenas. O importante é que os menores se conectem, nem que seja pelo tema, ao principal.
O conflito precisa se resolver no final?
O principal, sim, de um jeito ou de outro: vitória, derrota ou transformação. Um final aberto pode deixar perguntas, mas o leitor precisa sentir que a tensão central chegou a um ponto.