O discurso indireto livre: o que é e como usar
Veja três jeitos de contar o mesmo pensamento. Discurso direto: "Nunca vou conseguir", pensou Marta. Discurso indireto: Marta pensou que nunca ia conseguir. Discurso indireto livre: Nunca ia conseguir. Nunca. No terceiro caso não há aspas nem "pensou", e mesmo assim entendemos que é Marta quem pensa. É o discurso indireto livre, uma técnica que muita gente usa sem saber o nome.
Como funciona
No discurso indireto livre, a frase continua formalmente sendo do narrador, em terceira pessoa e com os tempos da narrativa, mas o conteúdo e o tom pertencem ao personagem. O leitor ouve os pensamentos dele como se passassem direto para a página, sem a mediação de um "pensou que".
Sinais típicos:
- perguntas e exclamações do personagem: Como ela tinha conseguido acreditar nisso?
- palavras e julgamentos dele, não do narrador: Aquele idiota do cunhado, claro.
- expressões coloquiais ou gírias que o narrador sozinho não usaria;
- frases quebradas, repetições, hesitações próprias do pensamento.
Por que é tão eficaz
O discurso indireto livre aproxima o leitor da mente do personagem sem interromper o fluxo. As aspas e os "pensou" criam pequenas molduras que lembram ao leitor que alguém está relatando. O indireto livre tira a moldura: por um momento, narrador e personagem coincidem.
É por isso que ele é a principal ferramenta do ponto de vista próximo. Permite narrar em terceira pessoa com a intimidade da primeira.
O efeito de ironia
Existe um uso mais sutil: como a voz do personagem se mistura com a do narrador, o leitor pode perceber uma distância. Se o personagem está se iludindo, o discurso indireto livre relata as ilusões com as palavras dele, e o leitor entende sozinho que as coisas não são bem assim.
Era evidente que o diretor a admirava. Ele tinha olhado para ela duas vezes durante a reunião.
Nenhum comentário do narrador e, mesmo assim, o leitor sorri.
Erros comuns
Confundir o leitor sobre quem está pensando. Se houver vários personagens em uma cena, o discurso indireto livre precisa pertencer claramente ao que tem o ponto de vista. Pular de uma cabeça para outra desorienta.
Exagerar no tom do personagem. Um capítulo inteiro de exclamações e frases quebradas cansa. O indireto livre funciona melhor alternado com uma narração mais neutra.
Misturar com os "pensou". Escrever em indireto livre e depois acrescentar "pensou ela" é redundante: o leitor já tinha entendido.
Como praticar
Pegue um trecho em que você escreveu pensou que, se perguntou se, percebeu que. Tire o verbo, reescreva o pensamento com as palavras que o personagem usaria e releia. Muitas vezes o trecho fica mais vivo e mais curto. Não é preciso eliminar todos os "pensou", mas é surpreendente quantos dá para tirar.
Perguntas frequentes
O discurso indireto livre também é usado em primeira pessoa?
Em primeira pessoa o narrador já é o personagem, então a diferença se atenua. Fala-se em indireto livre principalmente na terceira pessoa, onde ele funde duas vozes diferentes.
Posso usá-lo com vários personagens no mesmo romance?
Pode, mas normalmente um de cada vez, ligado ao personagem que tem o ponto de vista naquela cena ou capítulo. Mudar de personagem de forma clara, por exemplo com uma troca de capítulo, evita confusão.
Os pensamentos precisam de itálico?
Com o discurso indireto livre, não: o itálico é usado, quando muito, para o pensamento direto, em primeira pessoa e no presente. O indireto livre se integra à narração sem marcas gráficas.