Rubricas e encenação: quanto escrever

· Roberto Sirolo · 4 min de leitura

As rubricas — as indicações entre parênteses ou em itálico entre as falas — são o ponto em que quem escreve para teatro mais corre o risco de carregar hábitos da ficção em prosa. Um texto teatral não é um romance com os diálogos em destaque: as rubricas têm uma função precisa e limitada, e enchê-las as torna menos úteis.

O que as rubricas fazem e o que não fazem

As rubricas comunicam o que o diálogo sozinho não transmite e o que é preciso para entender a cena: um gesto que contradiz o que o personagem diz, um silêncio significativo, quem entra e sai, uma mudança de lugar. São informação funcional, dirigida a quem lê o texto — um diretor, um ator, um leitor — para que possa reconstruir a cena na cabeça ou no palco.

Não servem para descrever a atmosfera com a riqueza de um romance. "A sala estava imersa numa luz dourada que passava pelas persianas entreabertas, e no ar pairava o cheiro adocicado das flores murchas" é prosa narrativa: num texto teatral, esse trabalho é feito pelo cenário, pela iluminação, pelo som, não por uma nota entre as falas.

O mínimo indispensável

A regra prática é escrever o mínimo que torna a cena compreensível para quem lê sem ver. Se um gesto muda o sentido de uma fala — um personagem diz "está tudo bem" enquanto esconde uma mão tremendo — esse gesto vai na rubrica, porque sem ele o leitor entenderia a fala ao contrário. Se o gesto é óbvio pelo contexto — um personagem se senta ao dizer "vamos ficar à vontade" — a rubrica é supérflua.

Qualquer rubrica que dá para tirar sem a cena ficar ambígua é uma rubrica a mais.

Não ditar a atuação

Um erro comum é especificar o modo como uma fala deve ser dita: "(com raiva)", "(ironicamente)", "(com a voz embargada pela emoção)". Se a fala está bem escrita, o tom emerge das palavras e do contexto, e o advérbio na rubrica é redundante. Se a fala sozinha não carrega o tom, o problema é a fala, não a falta de uma indicação.

Os atores e o diretor trabalham a interpretação: um texto que dita cada nuance de atuação tira o espaço deles e muitas vezes é simplesmente ignorado no ensaio.

Os movimentos em cena: só os estruturais

As entradas e saídas devem sempre ser marcadas: são acontecimentos que mudam os equilíbrios da cena. Os movimentos com peso dramático — um personagem que se aproxima de outro, se põe entre duas pessoas, vira as costas — também merecem uma rubrica se o sentido da cena depender deles.

Os movimentos puramente práticos — atravessar a sala, pegar um objeto, servir uma bebida — geralmente podem ficar a critério do diretor, a menos que o momento exato em que acontecem importe para o ritmo.

A rubrica inicial: fixar o lugar, não descrevê-lo

No começo de uma cena é preciso uma rubrica que estabeleça onde estamos, quando, e quem está em cena na abertura. O mínimo vale aqui também: "Uma cozinha. Noite. ANA está sentada à mesa" basta para orientar. Um parágrafo descrevendo cada objeto sobre a mesa e a cor das paredes é tempo gasto num detalhe que o cenário vai resolver do jeito dele.

Trabalhar as rubricas na revisão

As rubricas quase sempre encolhem na revisão: no primeiro rascunho tendem a ser muitas e longas demais, porque quem escreve ainda está vendo a cena na cabeça e tenta transcrever tudo. Reler o texto se perguntando, para cada rubrica, "se eu tiro, a cena continua clara?" é a forma mais eficaz de reduzi-las ao necessário. No NovLore a estrutura do texto em cenas e o histórico de versões vivem no mesmo lugar, então você pode cortar as rubricas em excesso e recuperar a versão anterior se um corte deixou uma cena ambígua.

Perguntas frequentes

Posso usar as rubricas para sugerir a atmosfera?

De forma essencial sim — uma palavra sobre o tom geral de uma cena pode ajudar — mas não com a descrição extensa de um romance. A atmosfera no teatro é construída por cenário, iluminação, som e atuação; a rubrica pode dar uma indicação de direção, não substituir esse trabalho.

É errado indicar como uma fala deve ser dita?

Não é proibido, mas se usa com parcimônia. Se você faz isso com frequência, geralmente é sinal de que as falas não carregam o tom sozinhas. Reserve as indicações de atuação para os casos em que o tom é mesmo contraintuitivo em relação às palavras.

Quão longa pode ser a rubrica de abertura de um ato?

O mínimo para orientar: lugar, tempo, quem está em cena, e os elementos cênicos que importam para a ação. Se você se vê escrevendo mais do que umas linhas, provavelmente está descrevendo coisas que cabem ao cenário.

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O NovLore é o estúdio de escrita onde a estrutura e o texto de uma obra longa — romance ou texto teatral — vivem no mesmo lugar.