Tempo verbal: presente ou passado

· Roberto Sirolo · 4 min de leitura

Presente ou passado é uma das primeiras decisões técnicas de um romance, e uma das que mais se sentem mesmo quando o leitor não repara nelas. Não é uma questão de gosto abstrato: os dois tempos criam relações diferentes com a história e com quem a conta, e cada um traz vantagens e limites precisos.

O que muda de verdade entre presente e passado

O passado ("caminhou até a porta") situa a história num tempo já ocorrido: há um narrador que relata, com uma margem de distância e a possibilidade de já saber como as coisas correm. O presente ("caminha até a porta") põe o leitor no momento em que a ação acontece, junto do personagem, sem que ninguém saiba ainda como termina.

Dessa diferença decorrem todas as outras: a distância emotiva, a liberdade de antecipar ou comentar, a sensação de risco.

O passado: a opção invisível

O passado é o padrão da ficção há séculos, e é tão comum que o leitor não o registra como uma escolha. Funciona com qualquer gênero, qualquer extensão, qualquer voz. Dá ao narrador liberdade para se mover no tempo — antecipar, resumir anos numa frase, voltar atrás — sem fricções.

Se você não tem uma razão precisa para o presente, o passado é quase sempre a escolha certa: não tira nada e não pede nada em troca.

O presente: imediatez e os seus custos

O presente dá uma sensação de imediatez e de incerteza: o narrador não sabe o que vai acontecer, então o leitor também não se sente seguro. É eficaz nos thrillers, nas histórias em primeira pessoa muito próximas, em certos romances de formação em que importa estar dentro da experiência minuto a minuto.

Os custos: num romance inteiro o presente pode se tornar monótono e cansativo, porque é menos natural de ler em trechos longos. E torna mais difíceis os saltos temporais, os resumos, a alternância entre cena e elipse — tudo o que no passado se faz sem pensar.

A primeira pessoa no presente é um caso à parte

A combinação primeira pessoa + presente se tornou muito comum em alguns gêneros (o young adult sobretudo) a ponto de soar quase como uma convenção. Tem uma força real — máxima adesão ao personagem — mas também um risco: se a voz não está suficientemente caracterizada, todas essas histórias começam a se parecer. Se você escolher esse caminho, trabalhe a voz para que seja reconhecível, não apenas "no presente".

Mudar de tempo dentro do livro: quando funciona

Alternar os dois tempos é possível, mas deve ser um desenho legível: por exemplo os capítulos do presente da história no presente, os capítulos de flashback no passado. O leitor aprende a regra em dois capítulos e depois a usa como sinal.

O que não funciona é o deslize involuntário: um capítulo no passado com três parágrafos que escorregam para o presente porque nesse momento você escrevia "a quente". É o erro de tempo mais frequente nos primeiros manuscritos, e é preciso procurá-lo de propósito na revisão porque enquanto se escreve não se nota.

Experimentar um capítulo nos dois tempos

Se você está indeciso, a maneira mais confiável de escolher é reescrever um capítulo-chave — melhor um com ação e um com introspecção — em ambos os tempos e lê-los com um dia de intervalo. No NovLore o histórico de versões congela a cópia antes da reescrita, então você pode converter um capítulo para o presente, compará-lo com a versão no passado e voltar atrás sem ter perdido nada.

Perguntas frequentes

O presente é considerado menos "sério" do que o passado?

É um preconceito difundido mas infundado: existem romances literários importantes no presente. É verdade, porém, que alguns leitores e alguns editores o associam a gêneros específicos, e que cansa mais em textos muito longos. Escolhê-lo está bem, mas com consciência.

Posso narrar no passado e pôr os pensamentos do personagem no presente?

Sim, e é comum: os pensamentos diretos, sobretudo em itálico ou sem marcas, costumam ir no presente mesmo numa narração no passado. É uma convenção que o leitor aceita sem problemas, desde que seja coerente.

Como encontro os deslizes de tempo involuntários?

Faça uma passada de revisão dedicada só a isso: leia à procura dos verbos, não do sentido. Os deslizes se concentram nos pontos de maior agitação — cenas de ação, discussões — onde ao escrever se tende instintivamente para o presente.

Continue lendo

O NovLore é o estúdio de escrita onde a estrutura e o texto da sua obra vivem no mesmo lugar.