A sinopse e a carta de apresentação

· Roberto Sirolo · 5 min de leitura

A sinopse e a carta de apresentação são os dois textos que decidem se um manuscrito é lido para lá das primeiras páginas, e no entanto são também os mais mal-entendidos: muitos autores tratam-nos como pequenas amostras de marketing, quando na realidade respondem a duas perguntas completamente diferentes e têm de ser escritos com lógicas opostas.

A sinopse não é um trailer: tem de contar o final

O erro mais comum é escrever a sinopse como se escreveria a contracapa, deixando o final em suspenso para criar curiosidade. Um agente ou uma editora não estão a decidir comprar o livro como faria um leitor numa livraria: estão a avaliar se a estrutura aguenta, se o final resolve o que o enredo prometeu, se o livro funciona como máquina narrativa. Esconder o final na sinopse não cria suspense, só comunica que o autor não percebeu para que serve o documento.

Uma sinopse eficaz conta todo o arco da história na terceira pessoa, no presente, do início à resolução: quem é o protagonista, o que quer, que obstáculo enfrenta, como a história se desenvolve, como termina. Não é o lugar para prosa elaborada: é o lugar para provar que o enredo se aguenta de pé.

A extensão: muito mais curta do que parece necessário

A extensão típica pedida vai de meia página a duas páginas, e há que resistir à tentação de encher o espaço com pormenores de subtramas secundárias. Uma sinopse demasiado densa em nomes e acontecimentos menores esconde a espinha dorsal da história atrás de uma lista que ninguém consegue seguir.

O teste útil: se retirar um elemento faz com que a sinopse perca a capacidade de mostrar como o livro termina e porquê, esse elemento fica. Se a sinopse continua compreensível sem ele, corta-se, por mais importante que seja essa peça do romance.

O que tem de emergir: a estrutura, não a atmosfera

Quem lê uma sinopse procura sinais precisos: um protagonista com um objetivo claro, um conflito que se intensifica, uma estrutura que se aguenta, um final que resolve o que foi posto em movimento. A atmosfera, o estilo, o tom do livro não passam pela sinopse — passam pelas primeiras páginas do manuscrito, que costumam acompanhar o envio.

Escrever a sinopse tentando recriar a voz do romance é um esforço quase sempre desperdiçado: a sinopse tem o seu próprio registo, funcional e direto, diferente do do livro.

A carta de apresentação: poucas linhas, muito dirigidas

A query letter — a carta que acompanha o envio a um agente ou a uma editora — é mais curta do que a maioria dos autores pensa: bastam três parágrafos breves. O primeiro dirige-se à pessoa específica e diz porque te dirigias a ela — um livro que representa, um interesse declarado pelo género. O segundo é o gancho: uma ou duas frases que capturam a premissa do livro, próximas em espírito de uma logline. O terceiro dá os dados práticos — título, género, extensão em palavras, uma linha sobre o teu percurso se for relevante.

Uma carta que resume todo o enredo duplica o trabalho da sinopse e é quase sempre um sinal de que quem escreve ainda não percebeu a diferença entre os dois documentos.

Personalizar, não enviar em série

Uma carta idêntica enviada a cem agentes diferentes reconhece-se à primeira vista, e a maioria dos agentes descarta-a por esse motivo antes mesmo de avaliar o livro. Personalizar não significa escrever um texto inteiramente novo para cada um: significa mudar a primeira linha para nomear porque precisamente essa pessoa, esse livro representado recentemente, esse interesse declarado pelo género que escreves.

Isto exige fazer um mínimo de pesquisa sobre cada destinatário antes de escrever — o que representa, o que disse que procura — mas é o pormenor que mais vezes faz a diferença entre uma carta ignorada e uma lida até ao fim.

O gancho: a mesma disciplina da logline

A frase que capta a premissa do livro na carta de apresentação partilha a lógica de uma logline: protagonista, objetivo, obstáculo, o que está em jogo, numa frase que se poderia dizer em voz alta sem perder o fio. Se não conseguires comprimir o livro numa frase assim, é um sinal útil também sobre o próprio enredo — muitas vezes significa que o conflito central ainda não está suficientemente focado.

Manter alinhadas sinopse, carta e manuscrito

A sinopse e a carta têm de ser revistas sempre que o manuscrito muda de forma substancial — um final reescrito, uma subtrama cortada, um título alterado —, ou arrisca-se enviar a um agente uma sinopse que descreve um livro diferente do anexado. No NovLore a sinopse pode viver ao lado do manuscrito no painel, por isso fica à mão sempre que uma revisão estrutural muda algo que o documento de apresentação deve refletir.

Perguntas frequentes

A sinopse tem mesmo de revelar o final?

Sim, sempre, para envios a agentes e editoras. Serve para provar que a estrutura do livro aguenta do início ao fim, não para suscitar curiosidade. Escondê-lo é quase sempre interpretado como sinal de inexperiência.

Quanto deve medir uma query letter?

Geralmente menos de uma página, muitas vezes só alguns parágrafos. Mais longa do que isso arrisca não ser lida até ao fim, sobretudo quando chega junto com dezenas de outras na mesma semana.

Posso enviar a mesma carta a vários agentes ao mesmo tempo?

Na maioria dos casos sim, é prática comum — mas verifica sempre as orientações de cada agência, porque algumas a pedem em exclusivo. De qualquer forma, a estrutura base pode manter-se semelhante, mas a primeira linha e as referências específicas devem ser sempre adaptadas a cada destinatário.

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