A voz narradora num poema
Um poema que conta uma história tem um narrador, exatamente como um romance. Mas a forma em verso, e a tradição lírica que arrasta consigo, empurram de contínuo para uma voz que medita em vez de contar. Escolher a voz narradora e mantê-la coerente ao longo de todo o poema é um trabalho a fazer com o mesmo cuidado que se põe na estrutura.
Quem fala num poema narrativo
As opções são as da prosa. Um narrador na primeira pessoa que é uma das personagens. Um narrador na primeira pessoa externo, testemunha. Um narrador na terceira pessoa próximo de uma personagem. Um narrador na terceira omnisciente que vê tudo e todos. Cada uma muda o que o leitor pode saber e com que cor emotiva.
A escolha não é neutra em relação à matéria: uma história íntima suporta bem uma primeira pessoa; uma épica com muitas frentes pede muitas vezes uma terceira ampla. Decidir isto antes de escrever os cantos evita ter de os reescrever.
A voz bárdica e a sua distância
A tradição do poema narrativo tem uma voz reconhecível: a do cantor que refere factos ocorridos há muito tempo, com autoridade e certa solenidade. É uma terceira pessoa omnisciente com uma personalidade marcada — pode comentar, invocar, dirigir-se ao leitor.
É uma voz potente mas exigente: se a distância é demasiada, as personagens ficam como figurinhas e o leitor não se afeiçoa. Muitos poemas narrativos modernos mantêm a moldura bárdica mas aproximam-na, alternando o tom alto do cantor com momentos em que a voz entra na cena e a vive de perto.
Primeira pessoa: o risco de escorregar para o lirismo
A primeira pessoa num poema narrativo dá intimidade imediata, mas é também a porta por onde entra o problema mais comum: a voz deixa de contar e começa a meditar. Um canto que devia fazer acontecer algo torna-se uma reflexão do eu sobre um tema. Não é um defeito de escrita verso a verso — muitas vezes esses versos são belos — mas a história para.
O controlo é simples: cada canto deve fazer avançar a peripécia um passo concreto. Se no fim de um canto a situação é idêntica à do início, a voz lírica tomou o comando.
Terceira pessoa: quanta consciência das personagens
Com uma terceira pessoa há que decidir quanto se entra na cabeça das personagens. Uma terceira distante refere gestos e palavras, não pensamentos: eficaz para a ação, fria para a introspeção. Uma terceira próxima segue os pensamentos de uma personagem de cada vez. Uma terceira omnisciente vê-os a todos, mas arrisca dispersar a empatia.
No poema, onde cada verso pesa, convém de norma limitar as entradas na mente: poucas, escolhidas nos momentos que contam, resolvidas com uma imagem em vez de uma explicação.
A constância da voz ao longo dos cantos
O perigo de um poema longo é a voz mudar sem querer: o canto I escrito com um cantor solene, o canto VII com uma terceira próxima e coloquial, e o leitor que já não sabe quem lhe está a contar. Pequenas variações de tom são normais e úteis; uma mudança de dispositivo não.
Reler o início de cada canto de seguida, saltando o corpo, é uma maneira rápida de ouvir se a voz é a mesma: os arranques revelam o registo melhor do que o resto.
Fixar as regras da voz e verificá-las
Convém escrever em claro, antes de começar, que voz se escolheu: pessoa, distância, acesso aos pensamentos, se e quando se dirige ao leitor. No NovLore o painel guarda esta nota na bíblia da obra, ao lado dos cantos: quando após semanas se retoma o poema a meio, relê-se e recomeça-se com a mesma voz em vez de a reinventar.
Perguntas frequentes
Posso alternar primeira e terceira pessoa num poema narrativo?
Sim, mas deve ser um desígnio, não um acaso: por exemplo os cantos pares na primeira pessoa de uma personagem, os ímpares na terceira sobre o resto da história. A alternância ao acaso confunde; a regular torna-se uma estrutura que o leitor aprende a ler.
A voz do poema tem de ser "poética" por força?
Não no sentido de pomposa. Muitos poemas narrativos contemporâneos usam uma voz plana, quase falada, e confiam a qualidade poética ao verso e às imagens, não ao léxico solene. Uma voz demasiado alteada torna penoso um texto longo.
Como sei se a voz lírica está a tomar o comando?
Controla o avanço. Se vários cantos seguidos se fecham sem que nada tenha mudado na história — nenhum facto novo, nenhuma decisão, nenhum deslocamento — a voz está a meditar em vez de contar, por belos que sejam os versos isolados.