Abrir uma cena no ponto certo
O ponto em que uma cena começa decide metade do seu ritmo. As cenas que "não arrancam", que parecem lentas mesmo quando depois acontece algo, quase sempre têm o mesmo defeito: começaram demasiado cedo, antes do momento que conta. Corrigir isto é uma das operações de revisão com a melhor relação entre esforço e resultado.
Entrar tarde: o princípio de base
A regra clássica — "entra tarde, sai cedo" — vale sobretudo para o início. Entrar tarde significa abrir a cena o mais perto possível do momento em que algo muda: uma decisão, um conflito, uma revelação, a entrada de um elemento novo. Tudo o que vem antes — a personagem que se prepara, que chega, que se senta — é preâmbulo, e o leitor atravessa-o à espera de que comece a sério.
Não é preciso explicar como as personagens chegaram ali: o leitor dá-o por garantido.
O que saltar: chegadas, cumprimentos, conversa fiada
Três coisas podem quase sempre cortar-se do início de uma cena. As chegadas: "Abriu a porta, entrou, pendurou o casaco, olhou em volta." Começa a partir de depois. Os cumprimentos: "«Olá.» «Olá, como estás?» «Bem, e tu?»" — a menos que o modo como se cumprimentam diga algo. A conversa fiada: o diálogo de aquecimento antes do tema a sério. Se a cena é um confronto sobre a infidelidade, começa perto da infidelidade, não do café oferecido.
O "pigarrear" inicial
Muitas cenas abrem com uma ou duas frases em que o autor está a limpar a garganta: uma observação genérica sobre o tempo, um resumo do que a personagem sente, uma frase de cenário que se poderia pôr em qualquer sítio. São as frases escritas para ganhar balanço. Servem-te a ti para entrar na cena, não ao leitor para a ler, e na revisão vão-se quase sempre.
O sinal é que a segunda ou a terceira frase poderia ser a primeira sem que se perdesse nada.
O teste do primeiro parágrafo
Um teste rápido a aplicar a cada cena na revisão: apaga o primeiro parágrafo e lê a cena assim. Perde algo necessário? Quase nunca. Na maioria das vezes arranca mais forte, e a informação contida no parágrafo cortado ou não era precisa ou pode recuperar-se mais adiante numa linha.
Fá-lo como teste sistemático, não como escolha caso a caso: a percentagem de cenas que melhoram é alta.
Quando uma abertura lenta é justificada
Há casos em que vale a pena abrir devagar: quando a cena introduz um lugar novo que o leitor tem de visualizar, quando muda o ponto de vista e é preciso orientar, quando a lentidão é um contraste procurado antes de uma aceleração. Mesmo aí, porém, "devagar" não quer dizer "conversa fiada": quer dizer descrição ou interioridade que fazem um trabalho, não espera em vazio.
Encontrar o arranque na revisão
O arranque certo é difícil de ver enquanto escreves a cena, porque nesse momento precisas do preâmbulo para entrar nela. Vê-se depois, com a cena terminada, relendo de cima e perguntando "de onde começa a sério?". No NovLore o histórico de versões congela o capítulo antes da modificação, por isso podes cortar a abertura, tentar começar três frases mais adiante, e comparar com a versão anterior para verificar que não perdeste uma informação precisa.
Perguntas frequentes
Se cortar a chegada, como faço para que se perceba onde se passa a cena?
Com um detalhe dentro da ação, não com um parágrafo de preparação. "Afastou o prato ainda cheio" diz que estão à mesa sem descrever a entrada na cozinha. O cenário distribui-se pela cena, não se põe todo à frente.
Vale também para o primeiro capítulo do livro?
Sim, e aí conta mais: o primeiro capítulo tem menos margem do que nenhum. Também o início do livro deve abrir-se perto de uma mudança, não com páginas de vida normal antes do evento que põe a história em movimento.
E se a cena não tem um "momento que muda" claro?
Então o problema pode não ser o arranque mas a cena em si: se nada muda do início ao fim, talvez não seja uma cena mas uma ligação, e há que encurtá-la a poucas linhas ou fundi-la com a vizinha.