Chegar ao fim do primeiro rascunho

· Roberto Sirolo · 3 min de leitura

O ponto em que quase todos os romances encalham é por volta dos 40% do rascunho: o entusiasmo inicial acabou, o final ainda está longe, e no meio há uma zona cinzenta. Chegar ao fim de um primeiro rascunho é sobretudo uma questão de hábitos, não de talento.

O que é mesmo um primeiro rascunho

É a volta em que descobres a história a escrevê-la. Não é o livro: é o material em bruto do qual, na revisão, vais tirar o livro. Quem exige que o primeiro rascunho já seja bom bloqueia, porque está a pedir a uma fase exploratória que seja uma fase de acabamento.

Corolário prático: a qualidade de frase, num primeiro rascunho, não conta. Só conta que no fim haja um texto completo, com um início, um meio e um fim, que possas ler de ponta a ponta.

Os hábitos que te levam ao fim

  • Uma meta de palavras sustentável. Melhor 400 palavras por dia durante 200 dias do que 3 000 palavras durante quatro dias e depois três semanas de paragem. A constância vence a intensidade.
  • Não voltar atrás a corrigir. Se releres os capítulos escritos para "os arranjar", nunca avanças. A revisão é outra fase e tem outras ferramentas.
  • Anotar os problemas, não os resolver. Reparas que falta uma cena, que um nome não funciona, que uma motivação é fraca? Escreve [CORRIGIR: …] e segue. Parares para o resolver agora custa o embalo, e a solução muda na revisão de qualquer forma.
  • Terminar a sessão a meio de uma frase. No dia seguinte começas a completá-la: não enfrentas a página em branco, tens um apoio.
  • Uma nota de onde estás. Duas linhas ao terminar a sessão — "amanhã: a cena do confronto na cozinha, ela já sabe a verdade" — valem meia hora de arranque.

A zona cinzenta do segundo ato

O ponto em que se encalha tem quase sempre a mesma causa: depois do arranque, a história já não tem uma direção clara. Remédios para usar enquanto escreves, sem parar:

  • Volta a pôr em cena o desejo concreto do protagonista: o que quer agora, neste capítulo.
  • Acrescenta uma complicação que fecha um caminho: a personagem deve ter menos opções, não mais.
  • Se não sabes o que acontece a seguir, salta para a próxima cena que já sabes escrever e deixa um buraco assinalado. Os buracos preenchem-se melhor com o rascunho terminado.

Quando saltar à frente

Não é batota. Se uma cena te bloqueia há dias, escreve [CENA POR FAZER: viagem para a capital, discussão] e passa à seguinte. Muitos escritores descobrem, com o rascunho terminado, que metade dessas cenas saltadas não eram precisas.

Perguntas frequentes

Que tamanho deve ter um primeiro rascunho?

Mais ou menos o do romance terminado, muitas vezes um pouco mais: 70 000-100 000 palavras para a ficção geral. Se paras nas 40 000 e "não sabes o que acrescentar", costumam faltar complicações no segundo ato, não palavras.

É bom escrever as cenas fora de ordem?

Sim, se te mantém em movimento. O importante é ter uma lista do que falta e onde vai, para recompor no fim sem te perderes. Escrever por ordem dá menos trabalho de costura, mas manter a ordem ao preço de três meses de paragem não compensa.

Preciso de um esquema para chegar ao fim?

Ajuda, mas não é obrigatório. O mínimo útil são os quatro pontos principais: incidente desencadeador, primeiro ponto de viragem, ponto sem retorno, clímax. Com essas quatro referências sabes sempre para o que escreves.

Quanto tempo é razoável para um primeiro rascunho?

Varia muito, mas um intervalo comum é de três a nove meses a ritmo constante. Passado um ano o risco não é a lentidão em si: é que a voz e as intenções do livro se desviem pelo caminho, e a revisão se torne uma reescrita total.

E se reler o primeiro rascunho e o achar terrível?

É a norma, não um alarme. Um primeiro rascunho é terrível por definição: servia para existir. O livro constrói-se depois, nas passagens de revisão, a partir desse material.

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