Como encontrar a tua voz como escritor

· Roberto Sirolo · 4 min de leitura

Muitos escritores principiantes procuram a própria voz como se fosse um objeto escondido nalgum lado, por descobrir antes de poderem escrever a sério — e entretanto ficam bloqueados, convencidos de que tudo o que escrevem "ainda não soa a eles". É uma forma de pensar a voz que desvia do caminho certo: a voz não se encontra antes de escrever, constrói-se escrevendo, e quase sempre é visível para os outros antes de o ser para quem escreve.

O que é mesmo uma voz narrativa

A voz não é o vocabulário — não é "escrever com palavras rebuscadas" nem "escrever simples" — e é um erro comum confundi-la com um estilo decidido à secretária, do tipo "vou escrever frases curtas e cortantes". É antes o conjunto de pequenas escolhas repetidas que um autor faz sem se aperceber: quanto duram as frases em média, o que uma personagem repara primeiro ao entrar numa sala, quanta ironia se filtra até nos momentos sérios, quanto o narrador se aproxima ou se afasta do que conta.

Nenhuma destas escolhas, isolada, é "a voz". É a sua combinação, repetida de forma coerente capítulo após capítulo, que se torna reconhecível — da mesma forma que reconheces a letra de alguém não por uma única letra, mas pelo conjunto.

Porque copiar um estilo no início é normal, não um problema

Quem começa a escrever imita muitas vezes, mais ou menos conscientemente, o autor que mais admira: as frases parecem-se com as de um livro lido há pouco, os diálogos têm o mesmo ritmo. É uma experiência quase universal, e não é sinal de faltar voz própria — é a forma como se aprende qualquer ofício assente na linguagem: repetindo formas alheias até as perceber o suficiente para as poder dobrar.

O ponto de viragem chega quase sempre não ao decidir "agora paro de imitar", mas ao escrever o suficiente para esbarrar em escolhas que o autor imitado não teria feito — uma cena que aquele estilo não saberia contar, uma personagem que exige um ritmo diferente. É aí que aparecem as primeiras escolhas verdadeiramente próprias, quase sempre sem quem escreve se aperceber no momento em que as faz.

A voz encontra-se escrevendo muito, não a pensar nisso em abstrato

Refletir sobre a própria voz em abstrato — "que tipo de escritor quero ser" — raramente produz respostas úteis, porque a voz não é uma decisão mas um padrão que emerge da repetição. A forma mais fiável de a fazer emergir é escrever muito, sobre material variado: diferentes pontos de vista, diferentes registos, até géneros distantes do que se quer publicar. As escolhas que se repetem através de materiais diferentes são, com boa probabilidade, a voz — as que mudam consoante o projeto são só adaptação à tarefa, não identidade.

Um exercício prático útil é reler, meses depois, dois textos muito diferentes entre si escritos no mesmo período: o que se manteve constante apesar da diferença de tema ou género é um indício concreto de onde está a tua voz, muito mais fiável do que qualquer introspeção feita à secretária.

O risco contrário: uma voz forçada

Existe também um erro oposto, menos comum mas igualmente travador: decidir de antemão quais deveriam ser as próprias características estilísticas — "eu escrevo frases longas e líricas" — e forçá-las mesmo onde não são precisas, cena após cena, independentemente do que a cena exige. Uma voz autêntica varia: adapta-se à tensão da cena, aperta-se num momento de ação e abre-se num de reflexão, mantendo-se reconhecível sob essas variações. Uma voz forçada, pelo contrário, mantém-se idêntica a si mesma em todo o lado, e o leitor sente-a como uma pose em vez de uma presença.

O que a inteligência artificial tem a ver com a voz

Quem escreve com a ajuda de ferramentas de IA coloca muitas vezes a pergunta ao contrário: não "como encontro a minha voz" mas "como evito perdê-la usando estas ferramentas". Vale a pena ler à parte como usar a IA sem perder a voz: o ponto em comum é que a voz, uma vez que existe, se reconhece e se protege; o maior problema para quem começa não é protegê-la mas primeiro fazê-la surgir, e isso é um trabalho que nenhuma ferramenta pode fazer por ti.

Perguntas frequentes

Está bem escrever imitando o estilo de um autor que adoro?

Sim, sobretudo no início: é uma forma normal e útil de aprender a mecânica de uma voz que admiras. O importante é não ficar por aí — continua a escrever até surgirem escolhas que esse autor não teria feito, que são o primeiro sinal concreto da tua própria voz.

Quanto tempo é preciso para encontrar a própria voz?

Não há uma duração fixa, mas raramente é questão de semanas: a maioria dos escritores encontra-a depois de terminar pelo menos um romance inteiro, ou um número considerável de contos, porque a voz nasce da repetição sobre uma quantidade de páginas que nenhum exercício breve consegue replicar.

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