Do poema solto à coletânea: quando está pronta

· Roberto Sirolo · 3 min de leitura

Muitos poetas têm gavetas, digitais ou físicas, cheias de poemas escritos ao longo do tempo, sem que isso equivalha a ter uma coletânea pronta. A diferença não está na quantidade, mas noutra coisa.

Uma coletânea tem uma razão para ser lida por inteiro

O primeiro sinal útil não tem a ver com quantos poemas há, mas com se lê-los em sequência acrescenta algo que lê-los à parte não daria. Se os poemas pudessem trocar de lugar sem que nada mudasse, ou se saltar metade não alterasse a experiência, a coletânea provavelmente ainda não encontrou a sua arquitetura, mesmo que os poemas individuais sejam excelentes.

As repetições temáticas têm de ser reconhecidas, não escondidas

Quem escreve muito na mesma época tende a acumular vários poemas que abordam a mesma imagem ou a mesma ideia por ângulos ligeiramente diferentes. Não é um problema em si, mas uma coletânea pronta fez uma seleção consciente entre essas repetições, ficando com a versão mais forte em vez de as incluir todas para não "desperdiçar" trabalho.

O livro tem de aguentar também nos pontos mais fracos

Uma coletânea que contém um ou dois poemas claramente mais fracos do que os restantes, mantidos só para aumentar o número de páginas, sente-se incompleta mesmo que contenha excelentes poemas noutros pontos. O ponto mais baixo da coletânea, não a média, é o que o leitor recorda ao fechar o livro.

O tempo de repouso revela o que resiste de verdade

Os poemas escritos há pouco, ainda carregados da emoção que os gerou, são difíceis de julgar com lucidez. Relê-los semanas ou meses depois, quando a urgência inicial se atenuou, revela quais aguentam mesmo e quais dependiam mais do momento em que foram escritos do que de um valor autónomo na página.

Um segundo olhar externo pesa mais do que mil releituras próprias

Quem escreve tem dificuldade em ver a sua própria coletânea com olhos de leitor novo, precisamente porque já conhece o contexto de cada poema. Um leitor externo, mesmo não especialista, costuma identificar repetições, quebras de tensão ou poemas fora do sítio que o autor, demasiado próximo do material, já não consegue ver.

Perguntas frequentes

Quanto tempo demora em média a completar uma coletânea de poesia?

Varia imenso de pessoa para pessoa e não é um indicador útil por si só: algumas coletâneas nascem em meses, outras exigem anos de escrita e seleção. O tempo necessário não diz nada sobre a qualidade do resultado.

Devo descartar os poemas fracos ou posso revê-los antes de decidir?

Muitos poemas que parecem fracos numa primeira versão melhoram com a revisão. Vale a pena trabalhá-los antes de os descartar definitivamente, mas sem os manter na coletânea final só por não ter "desperdiçado" o trabalho feito.

É normal nunca nos sentirmos totalmente satisfeitos com a nossa coletânea?

Sim, é uma experiência comum entre quem escreve poesia: o perfecionismo pode prolongar indefinidamente a fase de revisão. A certa altura, a pergunta útil não é "estou satisfeito a cem por cento" mas "esta coletânea representa bem o que quero dizer agora".

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