O monólogo teatral: quando funciona

· Roberto Sirolo · 4 min de leitura

O monólogo é um dos momentos mais expostos do teatro: uma personagem sozinha, que fala longamente sem que ninguém a interrompa. Quando funciona, é um dos picos emocionais de um espetáculo. Quando não funciona, é o momento em que o público repara que está a ver um ator a recitar um texto, em vez de assistir a algo que acontece.

O monólogo é uma ação, não uma explicação

O erro mais comum é usar o monólogo para informar: a personagem conta o seu passado, explica os seus sentimentos, resume acontecimentos que o público deve conhecer. Isto transforma o monólogo num bloco de exposição recitado, e nota-se.

Um monólogo que funciona é uma ação: a personagem fala para fazer algo. Convencer-se de uma decisão que tem medo de tomar. Conter uma emoção prestes a arrasá-la. Construir uma acusação, preparar-se para uma confissão, discutir com um ausente. O texto não explica um estado de alma — põe-no em ato, em tempo real, diante do público.

O destinatário: quem está a ouvir

Todo o monólogo tem um destinatário, mesmo quando a personagem está sozinha em cena. Pode falar a outra personagem presente (um monólogo dentro de um diálogo, em que a outra cala). Pode dirigir-se diretamente ao público, quebrando a quarta parede. Pode falar a um ausente — um morto, uma pessoa distante, uma versão passada de si própria. Pode falar consigo própria, no sentido literal do solilóquio.

Saber com precisão a quem a personagem se dirige muda o tom, o ritmo, o tipo de argumentos que usaria. Um monólogo sem destinatário claro soa genérico, como se a personagem falasse "para o teatro" em vez de a alguém.

A mudança entre a primeira fala e a última

Um monólogo eficaz leva a personagem a algum lado. No início hesita, no fim decide. No início nega, no fim admite. No início está zangada, no fim está esvaziada. O monólogo é o processo dessa mudança, não o seu relato.

O teste é simples: compara a primeira e a última fala. Se a personagem está no mesmo ponto — emocional, de decisão — em que estava no início, o monólogo não fez acontecer nada, e quase sempre se pode cortar ou reduzir a umas linhas dentro de uma cena de diálogo.

O monólogo não deve dizer tudo

Um monólogo que expõe cada pensamento da personagem com clareza tira ao público o prazer de intuir. Os monólogos mais fortes deixam vazios: coisas que a personagem evita nomear, contradições que não resolve, uma emoção que diz por palavras e desmente pelo ritmo. O público completa esses vazios, e é esse trabalho que o torna participante em vez de espectador.

O ritmo: um monólogo não é um bloco uniforme

Um monólogo longo escrito todo no mesmo registo cansa. Os monólogos que aguentam têm uma estrutura interna: arrancam devagar e aceleram, ou arrancam agitados e apagam-se, ou alternam afirmações breves e frases que se alongam à medida que a personagem se perde no próprio pensamento. As pausas — assinaladas por uma didascália mínima ou pela própria estrutura das frases — fazem parte do texto tanto quanto as palavras.

Ensaiar o monólogo em voz alta, cedo e muitas vezes

Nenhum momento teatral revela os seus defeitos na leitura em voz alta como um monólogo: as frases que na página pareciam naturais revelam-se impronunciáveis, as passagens que pareciam concisas saem longas, as mudanças de tom que pareciam claras não se ouvem. Reescrever um monólogo depois de o dizer em voz, comparando as versões, é a forma mais fiável de trabalhá-lo. No NovLore a estrutura do texto e o histórico de versões vivem no mesmo sítio, por isso podes experimentar um corte ou uma progressão diferente e voltar atrás se a versão anterior aguentava melhor.

Perguntas frequentes

Quanto pode durar um monólogo teatral?

Muito variável, de umas linhas a vários minutos de representação. A duração não é o problema: um monólogo de cinco minutos que é uma ação contínua aguenta melhor do que um de trinta segundos que é pura exposição. Conta que cada parte do monólogo faça avançar o processo interno da personagem.

O monólogo pode dirigir-se diretamente ao público?

Sim, é uma tradição longa e legítima, do aparte shakespeariano ao monólogo frontal do teatro contemporâneo. Deve, contudo, ser decidido como escolha de encenação coerente: se uma personagem fala ao público uma única vez em todo o espetáculo, esse momento deve ter uma razão precisa.

Como evito que um monólogo soe como uma explicação para o público?

Parte sempre do que a personagem está a tentar obter ao dizer aquelas palavras naquele momento, e a quem as está a dizer. Se a resposta é "está a explicar ao público como estão as coisas", o monólogo não tem um objetivo dramático e deve ser repensado: essa informação, se for precisa, quase sempre pode passar pela ação ou pelo diálogo.

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O NovLore é o estúdio de escrita onde a estrutura e o texto de uma obra longa — romance ou texto teatral — vivem no mesmo sítio.