Vários pontos de vista na mesma cena

· Roberto Sirolo · 5 min de leitura

O ponto de vista de uma cena é a cabeça através da qual o leitor a vive: de quem ouve os pensamentos, de quem conhece as intenções, de quem percebe a sala. Na maior parte da ficção contemporânea essa cabeça continua a ser uma só durante toda a cena, e a mudança faz-se na fronteira — um capítulo novo, um salto de linha. Os problemas surgem quando o ponto de vista muda sem o autor se aperceber, ou quando muda sem parar sem uma direção.

Porque é que uma cena "quer" um só ponto de vista

Quando o leitor entra numa cena sintoniza-se com uma personagem: adota a sua perceção, espera saber o que ela pensa, preocupa-se com o que lhe acontece. É um investimento emocional, e constrói-se ao longo de alguns parágrafos.

Sempre que deslocas esse encaixe para outra cabeça, o leitor tem de refazer esse trabalho. Se o fizeres uma vez, com um sinal claro, ele segue. Se o fizeres a cada dois parágrafos, deixa de se encaixar em ninguém, e a cena torna-se uma câmara que ressalta entre pessoas sem o leitor estar dentro de nenhuma.

O salto de cabeça involuntário

O erro mais comum não é uma escolha: é um deslize. Estás na cabeça da Ana, a cena é dela, e a certa altura escreves "O Marco deu-se conta de que estava a exagerar". Nesse instante passaste para a cabeça do Marco, porque a Ana não pode saber do que o Marco se dá conta — só o pode ver hesitar.

O sinal é sempre este: um verbo de perceção ou de pensamento (dar-se conta, perceber, esperar, temer, recordar) atribuído a uma personagem diferente daquela a partir da qual narras. Para ficares na cabeça da Ana, essa linha passa a ser "O Marco hesitou, como se pesasse o que tinha dito". O mesmo conteúdo, mas filtrado por quem olha.

O omnisciente: mudar de cabeça com uma mão visível

Existe um ponto de vista que se move livremente entre as cabeças: o omnisciente. Não é um erro, é uma escolha com uma longa tradição, mas só funciona se o leitor perceber uma voz narradora acima das personagens — um encenador que decide mostrar ora uma, ora outra.

A diferença entre omnisciente e salto de cabeça involuntário é a consciência. No omnisciente as passagens são governadas: a voz narradora alarga ou aperta o campo ao seu próprio ritmo. No salto involuntário a perspetiva desliza porque o autor perdeu de vista a partir de que cabeça narra. Se escolheres o omnisciente, tem de ser uma escolha declarada desde as primeiras páginas, não algo que aparece a meio do livro.

O corte interno: mudar de POV a meio da cena

Se precisas de mostrar a mesma cena a partir de duas cabeças — primeiro como a Ana a vive, depois como o Marco a vive —, a ferramenta limpa é o corte interno: um espaço em branco que divide a cena em dois blocos, um por ponto de vista.

O leitor lê-o como "agora mudamos de perspetiva" e reorienta-se sem atrito. Usa-o com parcimónia: dois blocos numa cena estão bem, cinco tornam-se uma batedeira. E o segundo bloco deveria acrescentar algo que o primeiro não podia dar — a leitura oposta da mesma troca, uma informação que só o Marco tem —, não repetir os mesmos factos de outro ângulo.

O que ganhas com um só POV: a tensão do desconhecido

Ficar numa cabeça tem uma vantagem que se perde ao andar sempre a mudar: o leitor sabe exatamente o que a personagem sabe, e não mais. Se a Ana não sabe se o Marco mente, o leitor também não sabe, e essa incerteza é tensão.

No momento em que entras também na cabeça do Marco e revelas que ele está a mentir, trocaste a tensão do desconhecido pela da espera (o leitor sabe, e aguarda que a Ana descubra). É uma troca legítima, mas é uma troca: garante que a queres, cena a cena, em vez de dares a informação por distração.

Quando dois POV na mesma cena são mesmo precisos

Há casos em que a dupla perspetiva na mesma cena é a escolha certa. Uma cena de amor ou de rutura em que o sentido está na distância entre o que os dois sentem. Um confronto em que a ironia dramática — o leitor a saber o que cada um esconde — é o efeito procurado. Uma cena coral onde nenhuma personagem é o centro.

Mesmo assim, convém passar pelo corte interno ou por um omnisciente coerente, não pelo deslize. A regra prática: se não soubesses dizer, linha a linha, de quem é a cabeça nesse momento, o leitor também não.

Seguir o POV cena a cena

Num romance com várias personagens ponto de vista, saber sempre de quem é a cena que estás a escrever — e verificar na revisão que não há saltos — é metade do trabalho sobre o ponto de vista. No NovLore a estrutura em capítulos e cenas mantém juntos o texto e as suas anotações, por isso podes marcar para cada cena quem a "possui" e encontrar depressa os pontos onde a perspetiva se moveu sem quereres. As fichas das personagens no painel ficam à mão enquanto escreves, para não atribuíres a uma um pensamento que pertence a outra.

Perguntas frequentes

Posso mudar de ponto de vista dentro de um capítulo?

Sim, mas com um corte visual (um espaço em branco) entre os dois blocos e sem exagerar na frequência. Mudar de cabeça sem corte, uma frase de cada vez, é quase sempre percebido como um erro mesmo quando é deliberado.

Como é que dou por um salto de cabeça involuntário?

Procura os verbos de pensamento e de perceção — saber, perceber, dar-se conta, esperar, temer, recordar — e verifica a quem estão atribuídos. Se numa cena "da Ana" encontras "O Marco percebeu que...", saíste do ponto de vista dela. A correção é mostrar o comportamento do Marco tal como a Ana o veria.

O omnisciente é uma técnica errada?

Não, é uma escolha legítima com uma longa história. Mas exige uma voz narradora percetível e coerente do princípio ao fim. O problema não é o omnisciente em si: é o omnisciente usado por engano, que aparece numa cena e desaparece na seguinte.

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O NovLore é o estúdio de escrita onde a estrutura e o texto da tua obra vivem no mesmo sítio.