Não revise enquanto escreve

· Roberto Sirolo · 3 min de leitura

Muitos escritores não travam por não saber o que escrever, mas por reescrever a mesma página cinco vezes antes de passar para a seguinte. Revisar enquanto se escreve parece eficiência; na verdade é a forma mais comum de não terminar um romance.

Dois modos que não convivem

Escrever um primeiro rascunho e revisá-lo exigem duas atitudes mentais opostas:

  • O modo gerador produz: aceita a imperfeição, avança, deixa a história se revelar.
  • O modo crítico julga: para, compara, procura o defeito.

Os dois são úteis, mas não no mesmo momento. Se você os alterna frase a frase, a parte crítica sufoca a geradora: cada linha nova é levada a julgamento e cortada antes de ter uma chance. O resultado é uma página muito polida e um livro parado no capítulo 3.

Por que trava tanto

  • Custo de reinício. Toda vez que você passa de "escrevo" para "corrijo" e volta, perde alguns minutos para voltar ao fluxo. Multiplicado por dezenas de vezes por dia, é a sessão.
  • Lapidação de material provisório. Você refina frases em cenas que a revisão estrutural pode cortar. É trabalho que você vai jogar fora.
  • O perfeccionismo se autoalimenta. Quanto mais você relê, mais defeitos acha, mais se convence de não estar à altura. O bloqueio muitas vezes nasce aqui, não da falta de ideias.

Como resistir à tentação

  • Não releia para trás. No início da sessão, se reconecte com duas linhas de lembrete, não relendo o capítulo anterior.
  • Anote, não arrume. Frase ruim, buraco lógico, nome a trocar: [CORRIGIR: …] e adiante. A lista de problemas é preciosa para a revisão; resolvê-los agora não.
  • Desligue os avisos. Sublinhados vermelhos do corretor, contagem de palavras à vista, sugestões automáticas: tudo o que convida você a parar numa única frase. Num primeiro rascunho é ruído.
  • Mude de ferramenta ou de visão. Alguns escrevem o primeiro rascunho num editor "pobre", sem formatação nem estatísticas, justamente para tirar a tentação de ajustar.
  • Dê um lugar à parte crítica. Se uma preocupação volta insistente ("o capítulo um não funciona"), escreva-a na lista de problemas: assim você a coloca a salvo e a mente a solta.

O momento da revisão

O modo crítico não se reprime, se adia. Terminado o primeiro rascunho, deixe-o descansar duas semanas e depois abra uma revisão de verdade, por camadas: primeiro a estrutura, depois as cenas, depois as frases. Ali a parte crítica tem todo o espaço de que precisa, e ferramentas adequadas.

Perguntas frequentes

E se eu escrever uma frase claramente errada, deixo assim?

Sim. Uma palavra torta, um tempo verbal errado: não custam nada na revisão. Parar para arrumá-los agora custa o fluxo. A única exceção é quando o erro faria você escrever mal o resto da cena — aí uma correção relâmpago e adiante.

Não corro o risco de acumular uma bagunça ingerenciável?

Não: você acumula material, que é o objetivo. Um manuscrito completo e imperfeito é mil vezes mais trabalhável do que três capítulos perfeitos e nenhum final. A revisão por camadas existe justamente para pôr ordem nesse material.

Mudar de ideia sobre a trama enquanto escrevo conta como revisão?

Não, isso faz parte da descoberta. Se no capítulo 15 você percebe que o antagonista deve ser outro, não volta para reescrever: anota a nova versão e segue como se a mudança já tivesse sido feita. Você arruma tudo de uma vez depois.

Isso vale também para quem escreve com roteiro detalhado?

Sim. O roteiro reduz a incerteza sobre o que escrever, mas a tentação de lapidar as frases é independente. Mesmo com um roteiro perfeito, o primeiro rascunho continua sendo material bruto.

Como confio que "arrumo depois"?

Mantendo a lista de problemas escrita e à vista. Ver que cada preocupação está registrada em algum lugar é o que permite à mente soltá-la e continuar escrevendo.

Continue lendo

O NovLore é o estúdio de escrita onde a estrutura e o texto da sua obra vivem no mesmo lugar.