Arco positivo, negativo e plano: qual escolher

· Roberto Sirolo · 4 min de leitura

Antes de perguntares como fazer o protagonista mudar, decide se ele deve mudar e em que direção. São três possibilidades, e cada uma faz um pacto diferente com quem lê.

O arco positivo

De longe o arco mais comum na narrativa contemporânea. A personagem parte de uma crença falsa — a "mentira" — e, empurrada pelos acontecimentos, chega a aceitar uma verdade que antes rejeitava. Sai transformada, quase sempre mais livre.

Funciona quando:

  • queres que o leitor feche o livro com uma sensação de crescimento ou redenção;
  • o tema é a superação de um limite pessoal;
  • o protagonista é empático o suficiente para o leitor desejar que ele consiga.

O risco é a previsibilidade: se a mentira é fraca, o arco vira formalidade. Torna a crença de partida defensável, e a recaída lá pelos três quartos dura o bastante para pôr o desfecho em dúvida.

O arco negativo

A personagem tem a hipótese de aceitar a verdade e não o faz: rejeita-a, ou agarra-se à mentira com mais força do que antes. Acaba pior do que começou. Apresenta-se em três variantes.

Variante Ponto de partida Ponto de chegada
Desilusão acredita numa mentira reconfortante descobre uma verdade amarga e fica esmagada
Queda já acredita numa mentira afunda nela até à ruína
Corrupção conhece a verdade escolhe a mentira porque é mais cómoda ou poderosa

Um arco negativo não tem de deprimir. Se o leitor vê a encruzilhada com clareza e percebe por que a personagem escolhe mal, a história torna-se um aviso e produz catarse. É o terreno da tragédia, do noir e da maioria das histórias sobre poder.

O arco plano

A personagem não muda a sua crença de fundo porque ela já é a certa. O arco não é interno mas externo: é o mundo, ou são as outras personagens, que mudam graças à sua firmeza.

Não é um arco "ausente". O protagonista é posto à prova, tentado a abandonar a verdade, e resiste. Funciona para:

  • heróis de série que têm de continuar reconhecíveis de livro para livro;
  • histórias corais em que o protagonista é o eixo moral em torno do qual giram os arcos dos outros;
  • narrativas em que o conflito é social mais do que psicológico.

O risco espelho do arco positivo: se a personagem nunca é tentada a sério, apenas parece estática. A tentação tem de ser concreta e resistir-lhe tem de lhe custar algo.

Como escolher

Três perguntas, por esta ordem:

  1. Qual é o tema? Se o livro diz "é possível mudar", precisas de um arco positivo. Se diz "é isto que acontece a quem não muda", precisas de um negativo. Se diz "vale a pena ser fiel a um princípio mesmo quando custa", precisas de um arco plano.
  2. Que sensação deve ficar no leitor? Esperança, aviso, admiração. Não são intermutáveis.
  3. Quantos livros a personagem vai durar? Um arco positivo ou negativo consome-se: uma vez mudada, a personagem é outra. As séries longas tendem para o arco plano no protagonista e confiam os arcos móveis às personagens secundárias.

Também podes combinar: protagonista com arco plano e secundário com arco positivo que se apoia na sua firmeza; ou dois protagonistas, um que sobe e outro que desce, que se iluminam um ao outro.

Perguntas frequentes

Um romance pode ter vários arcos diferentes ao mesmo tempo?

Sim, e é comum. A regra prática é: um arco forte para o protagonista, um ou dois arcos menores para as secundárias, e de tipo diferente, para que se comentem em vez de se repetirem.

O arco plano é um atalho para quem não sabe escrever a mudança?

Não, é uma escolha com custos próprios. O arco plano transfere todo o trabalho para a pressão externa e para as personagens secundárias: se estas não têm um arco a sério, a história esvazia-se. É difícil de outra maneira, não menos.

Como evito que um arco positivo seja previsível?

Torna credível para o leitor, ainda que por um momento, que a personagem não vai conseguir. É preciso uma recaída autêntica no último quarto, com consequências que perduram mesmo depois do clímax.

Os antagonistas têm arco?

Muitas vezes têm um arco negativo em miniatura, ou um arco plano "em negativo": não mudam porque já estão corrompidos, e põem o protagonista à prova. Um antagonista com um pequeno arco positivo abandonado a meio é uma das formas mais eficazes de o tornar tridimensional.

É possível mudar o tipo de arco durante a revisão?

Sim, mas é uma revisão estrutural, não um retoque. Passar de positivo a negativo implica refazer cada escolha do protagonista no último terço e, muitas vezes, as sementes da primeira metade. Conta com isso como uma reescrita, não como uma correção.

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