Como criar um antagonista que segura a história

· Roberto Sirolo · 4 min de leitura

A forma mais rápida de estragar um romance de resto sólido é um antagonista que existe só para ser obstáculo: mau porque o enredo precisa de um mau, sem uma razão que se aguente fora dessa função. O leitor sente-o mesmo sem saber argumentá-lo — a história funciona, mas essa personagem parece de cartão comparada com as outras. Quase sempre o problema é o mesmo: o antagonista foi escrito a partir do ponto de vista do protagonista, nunca do seu próprio.

O teste do ponto de vista invertido

A forma mais fiável de verificar se um antagonista aguenta é pegar numa cena-chave em que aparece e reescrevê-la, mesmo que só mentalmente, a partir do seu ponto de vista. Se nessa versão ele se torna o protagonista de uma história com sentido — com um objetivo compreensível, obstáculos próprios, uma lógica interna — o antagonista aguenta, mesmo que continue moralmente errado. Se, contado por dentro, continuar a ser apenas uma personagem que existe para fazer mal, sem uma motivação que se sustente sozinha, o problema não é a sua moralidade: é que nunca foi escrito como uma pessoa, só como uma função do enredo.

Um bom exercício prático, mesmo que não chegue a entrar no livro, é escrever uma página inteira do ponto de vista do antagonista: o que pensa de si mesmo, o que julga estar a fazer, quem julga ser na sua própria história. Quase nenhum antagonista credível se vê a si mesmo como "o mau" — julga ter razão, ou não ter outra escolha, ou estar a fazer a coisa certa às pessoas erradas.

O antagonista precisa de um objetivo, não de um vício

Um erro comum é construir o antagonista a partir de um traço — é ganancioso, é cruel, é manipulador — em vez de a partir de um objetivo. O traço descreve como se comporta, mas não explica porquê, e sem um porquê o comportamento parece arbitrário, um fato que o autor lhe vestiu. Um objetivo concreto — quer proteger algo, reconquistar algo que perdeu, evitar que volte a acontecer algo que já lhe custou caro — dá ao antagonista uma direção própria, independente do protagonista, e é essa direção que gera os vícios, não o contrário: torna-se manipulador porque aprendeu que é a única forma que funciona para alcançar esse objetivo, não porque "é assim que é feito".

O conflito tem de ser real, não só declarado

Não basta que o antagonista queira algo diferente do protagonista no papel: o conflito tem de ser real em cada cena em que os dois partilham a página, não só na sinopse. Se um antagonista ameaça, promete consequências, e depois essas consequências nunca chegam — ou só chegam quando o enredo precisa delas — o leitor deixa de o levar a sério como ameaça, independentemente de estar bem escrito por palavras.

O teste prático: sempre que o antagonista aparece, algo tem de ficar mais difícil para o protagonista depois dessa cena do que estava antes. Se um capítulo com o antagonista pudesse ser retirado sem que nada mudasse para o protagonista, essa presença era decorativa, não um conflito real.

O antagonista não precisa de ser uma pessoa

O antagonismo não precisa de um vilão em carne e osso: pode ser uma sociedade, uma doença, o tempo que passa, uma parte do próprio protagonista. Nestes casos o princípio não muda, apenas se transfere: a força oposta tem de ter uma lógica interna coerente — as regras com que funciona uma sociedade opressiva, o modo previsível como uma doença piora, os mecanismos com que se ativa uma autossabotagem — para que o leitor a reconheça como real e não como um obstáculo colocado ali só para alongar o enredo.

Perguntas frequentes

O antagonista tem obrigatoriamente de ter um momento de redenção ou de humanidade?

Não, não é obrigatório, e forçá-lo quando não nasce da história produz o efeito contrário — parece uma tentativa de o tornar simpático mais do que de o tornar verdadeiro. O que é preciso não é simpatia, é coerência: um antagonista pode manter-se hostil até à última página e continuar a ser credível, se as suas razões forem claras desde o início e não mudarem por conveniência de enredo.

Quanto espaço deve ter o antagonista no romance?

Menos do que se pensa, muitas vezes. Um antagonista presente em cada página arrisca-se a tornar-se previsível; um que surge em poucos momentos bem escolhidos, mas cuja presença se sente mesmo quando não está em cena — nas consequências das suas ações, na tensão que gera por antecipação — pesa muitas vezes mais na história com menos páginas efetivas.

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