Como criar personagens que o leitor recorda

· Roberto Sirolo · 5 min de leitura

Uma personagem bem descrita não é necessariamente uma personagem memorável. Podes saber a cor dos olhos, a profissão e a cidade natal de alguém e esquecê-lo na mesma ao fim de um capítulo. O que fica no leitor não é a ficha biográfica: é a forma como uma pessoa reage quando não pode ter o que quer.

O motor é o desejo, não a descrição

Toda a personagem que aguenta tem um desejo concreto e perseguível — não "ser feliz", mas "recuperar a livraria da família" ou "ser escolhido para a missão". Um desejo abstrato não gera escolhas; um desejo concreto sim, porque perante um obstáculo a personagem tem de fazer algo preciso, e é aí que o leitor a conhece de verdade.

Por baixo do desejo declarado há quase sempre um medo que o bloqueia. O protagonista que quer recuperar a livraria pode temer descobrir que o pai não o estimava. É o medo, não o desejo, que explica por que a personagem hesita, adia, sabota-se a si mesma — e é aí que nasce a parte mais interessante de qualquer arco.

A contradição que torna verdadeira uma personagem

As personagens planas são coerentes: dizem o que pensam e fazem o que dizem. As personagens vivas têm um desfasamento entre os dois planos, e é esse desfasamento — não as virtudes ou os defeitos tomados isoladamente — que as faz parecer pessoas reais.

Diz que quer Faz de facto O que revela
Independência Pede sempre confirmação antes de decidir Tem medo de errar sozinha
Honestidade a qualquer custo Cala os pormenores que a deixariam mal vista A honestidade é uma imagem de si, não uma prática
Não se importar com ninguém Lembra-se dos aniversários de todos Protege-se dizendo-se indiferente

Esta contradição não deve ser declarada ao leitor: deve ser mostrada através das escolhas, e deixada para ele deduzir. Uma personagem que sabe que é contraditória e o explica em voz alta perde o efeito — a contradição só funciona enquanto é o leitor a descobri-la.

Construir o arco de transformação

O arco de uma personagem é o percurso do defeito até à sua correção — ou até à sua aceitação, se o defeito vencer (o arco trágico existe e é legítimo). Para funcionar precisa de três etapas ligadas, não de três eventos separados:

  1. O defeito inicial, ligado diretamente ao medo de base — não "é arrogante" em geral, mas "convence-se sozinha de que tem razão porque admitir um erro lhe lembra quando o pai a humilhava por ter cometido um".
  2. A prova que obriga a escolher entre o comportamento antigo e um novo, normalmente perto do ponto sem retorno do enredo.
  3. A confirmação final, uma cena — muitas vezes perto do clímax — em que a personagem enfrenta de novo a situação que a bloqueava no início, e desta vez reage de forma diferente.

Se tirares o nome da personagem de uma cena e o seu comportamento puder pertencer a qualquer outra do elenco, essa cena não está a usar a personagem: está só a movê-la de um ponto para outro do enredo.

O erro mais comum: o defeito-etiqueta

"É tímida", "é arrogante", "está ferida pelo passado" não são defeitos: são etiquetas que resumem um defeito sem o especificar. Uma etiqueta não gera cenas, porque não diz o que acontece na prática quando a personagem a encontra.

A diferença vê-se comparando as duas versões:

  • Etiqueta: a personagem é tímida.
  • Defeito operacional: a personagem aceita trabalhos que não quer só para não ter de dizer não em voz alta, e arrepende-se sempre tarde demais.

A segunda versão produz cenas automaticamente: alguém pede-lhe um favor, ela aceita contra a sua vontade, a situação piora. A primeira não produz nada por si só.

Personagens secundárias: até que ponto aprofundar

Nem todas as personagens precisam de um arco. As secundárias sustentam a história de duas formas diferentes, e vale a pena distingui-las antes de escrever:

  • Espelho — mostra ao protagonista uma versão alternativa de si mesmo, muitas vezes aquilo em que se tornaria se não mudasse.
  • Obstáculo funcional — existe para criar atrito numa cena precisa; basta um desejo claro e coerente, não um arco inteiro.

Dar um arco completo a uma personagem que só serve de obstáculo funcional alonga o livro sem acrescentar nada: o leitor sente o peso narrativo desproporcionado face ao papel.

Perguntas frequentes

Quantas personagens principais aguenta um romance?

Depende mais do ponto de vista narrativo do que do número absoluto. Em primeira pessoa ou terceira limitada, o leitor aguenta bem 3-5 personagens com arco próprio; para lá desse número, sem uma estrutura coral explícita (várias vozes narrativas alternadas), os arcos começam a diluir-se uns nos outros.

O protagonista tem de ser simpático?

Não, tem de ser compreensível. Um protagonista pode ser desagradável, desde que o leitor perceba porque se comporta assim — o desejo e o medo por baixo da superfície. A simpatia é um bónus, não um requisito: muitas personagens memoráveis são difíceis de amar e facílimas de compreender.

Como se evita que uma personagem pareça um clichê?

O clichê nasce quase sempre de ficar pela etiqueta em vez de descer ao defeito operacional. O "mentor sábio" é um clichê enquanto for apenas um papel; deixa de o ser assim que lhe dás um desejo próprio que nada tem a ver com o protagonista, e talvez o ponhas em conflito precisamente com a missão de o guiar.

É preciso escrever uma ficha biográfica completa antes de começar?

Não é necessário, e é muitas vezes tempo gasto na direção errada. Compensa fixar desejo, medo e contradição antes de escrever — são as três coisas que geram cenas — enquanto pormenores como a infância ou os hábitos do dia a dia se podem acrescentar pelo caminho, quando a história realmente os pedir.

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