Como estruturar um romance: o guia completo

· Roberto Sirolo · 6 min de leitura

Quase todos os romances por terminar morrem no mesmo sítio: por volta dos 40% do texto. O início está escrito, o final já está claro na cabeça, e no meio há uma zona cinzenta onde já não sabes o que deve acontecer. É exatamente para isso que serve a estrutura — não para prender a história, mas para te dar um mapa quando o impulso inicial se esgota.

O que é a estrutura de um romance

A estrutura de um romance é a ordem por que os acontecimentos são contados ao leitor e a forma como a tensão é distribuída ao longo do livro. Não é a mesma coisa que o enredo: o enredo é o que acontece, a estrutura é quando o leitor o descobre, e com que peso.

Dois romances com o mesmo enredo e estruturas diferentes são dois livros diferentes. Se um crime é contado logo no início, tens um policial; se é revelado a três quartos da história, tens um drama familiar com uma reviravolta.

As três estruturas que funcionam mesmo

Existem dezenas delas, mas na prática quase todos os romances publicados se reduzem a três modelos. Não competem entre si: são níveis de pormenor diferentes do mesmo movimento.

Modelo Momentos a decidir Para quem serve
Três atos 4 quem quer o mínimo indispensável
Viagem do herói 12 histórias de formação, fantasia, aventura
Sete pontos 7 quem quer precisão sem rigidez

Os três atos

É o modelo mínimo, e sozinho já sustenta um romance inteiro. Primeiro ato: apresenta-se o mundo e depois quebra-se. Segundo ato: o protagonista reage e falha, depois age e falha melhor. Terceiro ato: ajuste de contas.

As proporções mais comuns são 25% – 50% – 25%. Num romance de 90.000 palavras, isso dá cerca de 22.000 palavras no primeiro ato, 45.000 no segundo, 23.000 no terceiro. Não são regras: são o ponto de partida a partir do qual medes os desvios que decides fazer.

A viagem do herói

Doze etapas, do mundo comum ao regresso com o elixir. É o modelo mais detalhado e o mais fácil de usar mal: seguido à letra, produz histórias que o leitor já leu. Funciona quando o tratas como uma lista de perguntas — qual é a recusa do chamamento do meu protagonista? — e não como um guião a preencher.

Os sete pontos

Gancho, primeiro ponto de viragem, primeiro pinch, ponto central, segundo pinch, segundo ponto de viragem, resolução. A vantagem é que se constrói de trás para a frente: decide-se primeiro a resolução, depois o gancho como seu oposto, e os pontos intermédios tornam-se o caminho entre os dois. É a abordagem que desperdiça menos tempo.

Os quatro momentos que nenhum romance pode saltar

Seja qual for o modelo que escolhas, estes quatro momentos estão sempre presentes. Se faltar um, o leitor sente-o como aborrecimento, mesmo sem saber dizer porquê.

  1. O incidente incitador — o acontecimento que torna impossível voltar à vida de antes. Deve situar-se dentro dos primeiros 15% do livro: mais tarde do que isso, o leitor perde a paciência antes de perceber do que trata a história.
  2. O primeiro ponto de viragem — o protagonista deixa de sofrer as circunstâncias e passa a escolher. Fecha o primeiro ato.
  3. O ponto sem retorno — exatamente a meio, algo torna impossível a retirada. É o antídoto para a zona cinzenta dos 40%.
  4. O clímax — o ajuste de contas, onde o protagonista usa exatamente aquilo que aprendeu ao falhar.

Se não consegues dizer numa frase o que acontece em cada um destes quatro pontos, ainda não tens uma estrutura: tens uma ideia.

Como se constrói, na prática

O método mais rápido é avançar por aproximação sucessiva, em três passos.

Primeiro passo — a frase. Escreve o romance numa única frase: um protagonista quer X, mas Y impede-o, e se falhar acontece Z. Se não consegues fazer isto, o problema não é a estrutura: é que a história ainda não tem um conflito.

Segundo passo — os quatro momentos. Uma frase para cada um dos quatro momentos acima. Nesta altura já tens o esqueleto completo de um romance em meia página.

Terceiro passo — as cenas. Só agora desces às cenas individuais, preenchendo o espaço entre um momento e o outro. Cada cena tem de mudar alguma coisa: se no final a situação é idêntica à do início, a cena é um resumo disfarçado.

Quanto planear antes de escrever

Quem planeia tudo arrisca-se a escrever um livro que já viveu na cabeça; quem não planeia nada arrisca-se a reescrevê-lo três vezes. Na prática, funciona um meio-termo: estrutura fixa nos quatro momentos, liberdade total no resto. Sabes onde tens de chegar, não como lá chegas.

Quando a estrutura não está a funcionar

Três sintomas recorrentes, cada um com o diagnóstico que quase sempre o explica:

  • O segundo ato afunda-se → falta o ponto sem retorno a meio, ou está demasiado fraco.
  • O final parece surgir do nada → o elemento que resolve o clímax nunca foi semeado no primeiro ato.
  • O leitor não se afeiçoa a ninguém → o protagonista sofre as circunstâncias durante páginas a mais antes do primeiro ponto de viragem.

Nenhum destes três se resolve escrevendo melhores frases. Resolve-se movendo peças de lugar.

Perguntas frequentes

Que extensão deve ter um romance?

Para a ficção geral contemporânea, entre 70.000 e 110.000 palavras. A fantasia e a ficção histórica toleram 120.000–150.000 palavras; os livros infantojuvenis ficam entre 40.000 e 70.000. Abaixo das 40.000 palavras já se fala em novela curta; acima das 150.000, um autor estreante tem objetivamente mais dificuldade em ser lido por uma editora.

Tenho mesmo de fazer um esquema antes de escrever?

Não. Mas quem escreve sem esquema também estrutura o romance — só que o faz depois, na revisão, e dá mais trabalho. Fixar os quatro momentos principais antes de começar custa meia hora e poupa meses de reescrita.

A estrutura tira espontaneidade à escrita?

É o receio mais comum, e nasce de um equívoco: a estrutura decide onde tens de chegar, não o que escreves para lá chegar. As cenas, os diálogos e as imagens continuam inteiramente teus. Saber qual é o próximo momento obrigatório é precisamente o que te permite improvisar sem te perderes.

Quantos capítulos deve ter um romance?

Não existe um número certo. Na ficção contemporânea, os capítulos ficam em média entre 1.500 e 4.000 palavras, o que leva um romance de 90.000 palavras a 25–50 capítulos. A regularidade importa mais do que a contagem: capítulos com extensões muito diferentes entre si quebram o ritmo de leitura.

Posso mudar de estrutura a meio da escrita?

Sim, e é normal. Trocar de modelo a meio do caminho não significa deitar fora o que já escreveste: na maioria dos casos significa mover duas ou três cenas e reescrever as dobradiças entre elas. É bastante menos trabalho do que parece visto de dentro do pânico.

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