Como escrever um incipit que cativa o leitor

· Roberto Sirolo · 3 min de leitura

A primeira página de um romance tem uma única tarefa, e é mais modesta do que parece: não tem de convencer o leitor de que o livro é uma obra-prima, só tem de lhe dar um motivo para ler a segunda. E, no entanto, é a página em que se escrevem mais rascunhos, se acumula mais ansiedade e se cometem os erros mais previsíveis.

O que um incipit deve fazer (e o que não deve fazer)

Um bom início faz três coisas, quase sempre juntas: põe algo em movimento, dá ao leitor um ponto de vista reconhecível e promete — sem o declarar — o tipo de livro que está prestes a ler. Não tem de explicar o cenário, não tem de resumir a biografia do protagonista, não tem de justificar por que razão a história começa precisamente ali.

O teste mais simples é este: se, ao retirar o primeiro parágrafo, a cena continua a funcionar, esse parágrafo provavelmente não era necessário. Muitos incipits funcionam melhor cortando as primeiras linhas escritas, não acrescentando outras — o verdadeiro início está muitas vezes um pouco mais à frente do que se pensa.

As aberturas que funcionam mesmo

Não existe uma fórmula única, mas as aberturas que prendem o leitor têm uma coisa em comum: começam com movimento, não com uma fotografia. Uma personagem que faz algo, decide algo ou reage a algo — não uma personagem que acorda, olha pela janela e reflete sobre a própria vida.

Abertura Efeito Risco
Ação em curso O leitor entra já em movimento Confusão se faltar uma âncora mínima
Voz distintiva O leitor afeiçoa-se à forma de contar Tem de aguentar o livro inteiro, não só uma página
Pergunta implícita O leitor quer a resposta Tem de ser respondida em poucas páginas, não em centenas
Rutura do equilíbrio O leitor percebe o que está em jogo Ainda assim precisa de um mínimo de orientação

As duas ou três primeiras linhas contam mais do que as outras: são elas que decidem se quem folheia o livro na livraria — ou lê a antevisão online — chega à quarta.

Os erros que afastam o leitor

O mais comum é o despertar: o protagonista abre os olhos, e as primeiras páginas servem para descrever o quarto, o corpo, o dia que vai começar. É uma abertura passiva por definição — não está a acontecer nada que o leitor tenha de seguir.

O segundo é o infodump biográfico: nome, idade, profissão, aspeto físico e história familiar do protagonista, tudo antes de acontecer alguma coisa. O leitor ainda não tem motivo para querer saber estas coisas, e esquece-as à mesma velocidade com que as lê.

O terceiro é a cena "antes da cena a sério": um capítulo de preparação — a viagem até ao lugar onde tudo começa, os preparativos, a rotina diária — que o leitor tem de atravessar antes de a história começar mesmo. Quase sempre pode cortar-se e começar mais à frente, onde as coisas começam a mexer-se.

Como perceber se o teu incipit resulta

Tenta tapar o título e o nome do autor, e lê só as primeiras cinco linhas como se as encontrasses por acaso. Dão-te um motivo para continuar? Há movimento, uma pergunta, uma voz? Se a resposta mais honesta for "espera, isso vem depois", o incipit ainda não é o certo — e não faz mal: é o parágrafo que quase todos reescrevem por último, não primeiro.

Perguntas frequentes

Quanto tempo deve durar a primeira cena antes de abrandar?

Não há uma medida fixa, mas a maioria dos incipits que resultam estabelece o movimento dentro da primeira meia página, não além da primeira página inteira.

Tenho de escrever o incipit primeiro?

Não. Muitos autores só escrevem o incipit definitivo depois de terminarem o romance, quando já sabem mesmo com que tom e que promessa o livro deve abrir.

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