Desejo e necessidade do protagonista
Muitos protagonistas funcionam no papel, mas não ficam connosco: querem algo, lutam, conseguem ou não, e o livro acaba. O que falta, muitas vezes, é um segundo nível. A personagem persegue um objetivo, mas o leitor pressente que o verdadeiro problema é outro. É a distância entre desejo e necessidade, uma das ferramentas mais simples e poderosas para construir uma personagem.
O desejo: aquilo que persegue
O desejo é o objetivo consciente do protagonista, aquele que diria se lho perguntasses. É concreto e visível: conseguir uma promoção, encontrar o culpado, salvar a casa da família, ganhar uma corrida.
O desejo move o enredo. Gera as ações, os obstáculos, as cenas. Sem desejo, o protagonista fica parado.
A necessidade: aquilo de que precisa
A necessidade é aquilo de que a personagem precisa realmente para ficar bem ou para se tornar quem tem de ser. Costuma ser interior e a personagem não a vê: aceitar uma perda, pedir ajuda, deixar de provar algo ao pai, aprender a confiar.
A necessidade move o arco da personagem. É o que muda, ou o que a personagem se recusa a mudar, do início ao fim do livro.
Porque é que a distância funciona
Quando desejo e necessidade coincidem, a história é linear: a personagem quer aquilo de que precisa e consegue-o. Quando divergem, surge uma tensão profunda: quanto mais o protagonista persegue o seu objetivo, mais se afasta daquilo de que realmente precisa.
Uma gestora quer a promoção (desejo). Precisa de aceitar que não consegue controlar tudo (necessidade). Cada passo rumo à promoção torna-a mais rígida, mais sozinha, mais longe de si mesma. O leitor vê-o antes dela, e é isso que o prende.
Como se resolve: três finais possíveis
A relação entre desejo e necessidade sugere também o tipo de final:
- obtém a necessidade e renuncia ao desejo: a gestora deixa ir a promoção e reencontra-se. É o final de transformação positiva, agridoce;
- obtém ambos: percebe aquilo de que precisa e, precisamente por isso, alcança também o objetivo, de uma forma diferente da que imaginava;
- obtém o desejo e perde a necessidade: consegue a promoção e fica sozinha. É o final trágico, ou o arco negativo.
Nenhum é melhor do que os outros. O que conta é que a escolha seja coerente com aquilo que o livro quer dizer.
Como encontrar a necessidade da tua personagem
Algumas perguntas ajudam:
- Porque é que quer precisamente isto? Por trás do desejo há quase sempre uma ferida ou um medo. A necessidade está aí.
- O que a impediria de ser feliz mesmo que conseguisse tudo? A resposta é muitas vezes a necessidade.
- Que crença errada tem sobre si mesma ou sobre o mundo? "Se eu não controlar tudo, tudo desmorona." A necessidade é desmontá-la.
Mostrá-la sem a declarar
A necessidade não deve ser explicada pelo narrador nem confessada pela personagem no segundo capítulo. Mostra-se através das escolhas: a personagem que recusa ajuda quando precisaria dela, que reage de forma desproporcionada a uma crítica, que repete o mesmo erro em contextos diferentes. O leitor junta os sinais e, quando a personagem finalmente compreende, sente que o momento foi conquistado.
Perguntas frequentes
A necessidade tem de ser sempre interior?
Quase sempre, mas não obrigatoriamente. Também pode ser relacional: reconciliar-se com alguém, deixar partir uma pessoa. O importante é que seja diferente do objetivo que a personagem persegue de forma consciente.
As personagens secundárias também têm desejo e necessidade?
As principais sim, e isso enriquece a história. Para as secundárias menores basta um desejo claro: saber o que querem em cada cena já as torna vivas.
E se o meu protagonista não mudar?
Não faz mal: existem arcos planos, em que é a personagem que muda o mundo à sua volta. Nesse caso, a necessidade já está muitas vezes resolvida, e a história põe à prova a sua convicção em vez de a transformar.