Imagem e figura de estilo na poesia

· Roberto Sirolo · 4 min de leitura

A imagem está no coração de grande parte da poesia: o momento em que a linguagem deixa de nomear as coisas e começa a relacioná-las. Mas a imagem é também o ponto onde se concentram os erros mais comuns: a acumulação, a abstração, a explicação.

A imagem concreta ganha à abstrata

Uma imagem forte é quase sempre concreta: um objeto, um gesto, um pormenor sensorial que o leitor pode ver, ouvir, tocar na mente. "A dor era um peso insuportável" é abstrato e não deixa nada. "Usava o luto como se usa um casaco de inverno no verão" é concreto: o leitor sente o calor, o incómodo, a inadequação, sem que nenhuma dessas palavras esteja escrita.

A regra prática: quando escreves uma imagem abstrata, pergunta-te a que coisa concreta corresponde. Muitas vezes a versão concreta estava ali, por baixo, e dizia o mesmo com mais força.

Uma metáfora só, desenvolvida

O erro mais espalhado nos primeiros poemas é a acumulação: quatro metáforas diferentes no espaço de quatro versos, cada uma nova, cada uma abandonada logo. O leitor não consegue seguir, e nenhuma imagem tem tempo de trabalhar.

Um poema forte tem muitas vezes uma só imagem central, sustentada e desenvolvida: introduzida, depois retomada de outro ângulo, depois levada a uma consequência. A metáfora do luto como casaco de verão, se volta na estrofe seguinte — quem o usa a desabotoar os botões, à procura de sombra —, torna-se uma estrutura, não um ornamento.

Não explicar a figura

A imagem que o poeta explica perde a sua força. "Como uma folha ao vento — ou seja, sentia-me sem controlo, à mercê dos acontecimentos" anula o trabalho que a imagem teria feito sozinha. O leitor percebe "folha ao vento" sem precisar da glosa, e essa compreensão imediata, não mediada por uma explicação, é o efeito poético.

Se sentes a necessidade de explicar uma imagem, o problema costuma ser que a imagem não é suficientemente precisa, não que ao leitor falte uma ajuda.

As figuras para lá da metáfora

A metáfora e a comparação são as mais visíveis, mas a poesia trabalha com muitas outras figuras: a sinédoque (a parte pelo todo), a metonímia (uma coisa por outra a ela ligada), a personificação, o oximoro, a hipálage. Não é preciso conhecer os nomes para as usar, mas saber que existem ajuda a não reduzir cada imagem a "X é como Y".

Muitas vezes a imagem mais eficaz não é uma metáfora declarada mas um pormenor escolhido por sinédoque ou metonímia: "as mãos gretadas no volante" diz da vida de uma pessoa mais do que qualquer comparação.

A imagem aproveitada até ao fim

Uma imagem introduzida e depois esquecida é um desperdício. Se num poema aparece o mar, e depois o mar nunca volta — no léxico, no ritmo, noutra imagem que o evoque —, esse mar era decoração. Os poemas mais compactos usam cada imagem mais do que uma vez, fazendo-a ressoar em pontos diferentes do texto.

Trabalhar as imagens na revisão

Rever um poema é em grande parte trabalho sobre as imagens: cortar as em excesso, tornar concretas as abstratas, retirar as explicações, desenvolver a central. Comparar duas versões com escolhas diferentes é a forma mais fiável de perceber que imagem aguenta. No NovLore o histórico de versões guarda o rasto de cada reescrita no local, por isso podes experimentar retirar uma metáfora, desenvolver outra, e voltar atrás se a versão anterior era mais forte.

Perguntas frequentes

Quantas metáforas pode conter um poema breve?

Não há um número, mas o princípio é: melhor uma desenvolvida do que três esboçadas. Se cada verso introduz uma imagem nova, quase sempre o poema ganha ao escolher uma ou duas e deixar cair as outras.

Uma imagem pode ser abstrata e funcionar na mesma?

Raramente. A abstração ("a solidão", "o tempo", "a perda") tende a escapar sem deixar rasto. Quando uma imagem abstrata funciona, costuma ser porque está ancorada a algo concreto no verso vizinho.

Devo evitar as comparações e usar só metáforas?

Não. A comparação ("como...") é mais explícita e às vezes é exatamente o que é preciso. A diferença entre comparação e metáfora conta menos do que a precisão da imagem: uma comparação exata ganha a uma metáfora vaga.

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