Mostrar, não contar: o que significa de facto

· Roberto Sirolo · 4 min de leitura

"Show, don't tell" é provavelmente o conselho de escrita mais citado e mais mal interpretado que existe. Levado à letra, leva a um erro quase tão grave como o defeito que quer corrigir: um escritor que tenta mostrar tudo — cada deslocação, cada refeição, cada pensamento — em cena, com diálogos e ações, em vez de contar uma parte, produz um romance tão lento como um que conta tudo por resumo. O ponto não é "mostrar sempre": é saber quando mostrar e quando contar, e este artigo tenta tornar essa escolha menos instintiva e mais consciente.

O que significa de facto "contar"

Contar (telling) é resumir: "passaram-se três anos difíceis" ou "o Marco era uma pessoa desconfiada". É informação comprimida, sem cena, sem o tempo real da ação. Não é um erro em si — é a única forma de fazer avançar o tempo do romance sem escrever três mil páginas — mas torna-se um problema quando substitui um momento que o leitor devia ter vivido em primeira pessoa para acreditar de verdade.

"O Marco era uma pessoa desconfiada" é uma etiqueta: o leitor lê-a, regista-a, e esquece-a ao fim de um capítulo, porque não lhe aconteceu nada enquanto a lia. É uma afirmação, não uma experiência.

O que significa "mostrar"

Mostrar (showing) é encenar, com ação, diálogo e pormenor sensorial, o momento em que essa desconfiança se manifesta: o Marco a verificar duas vezes a fechadura antes de ir dormir, a responder a uma pergunta direta com outra pergunta, a nunca deixar que alguém acabe uma frase sobre ele. O leitor não lê que o Marco é desconfiado — vê-o sê-lo, e conclui-o sozinho. Uma conclusão a que o leitor chega sozinho pesa dez vezes mais do que uma afirmação do autor, porque se torna uma descoberta sua, não uma informação recebida.

Quando mostrar: os momentos que decidem algo

A regra prática mais útil é esta: mostra os momentos em que acontece uma mudança emocionalmente decisiva — uma decisão, uma rutura, uma revelação, o ponto em que uma personagem deixa de ser a mesma pessoa de antes — e conta por síntese tudo o que só serve para ligar esses momentos entre si.

Uma discussão que fecha para sempre uma relação entre duas personagens merece uma cena inteira, com diálogo, gestos, o não dito nas entrelinhas. O facto de os dois não voltarem a falar durante os seis meses seguintes pode ser uma linha: "Não voltaram a falar durante seis meses." O leitor não precisa de viver esses seis meses vazios: precisa de viver a rutura, e de saber o que aconteceu depois. Confundir as duas coisas — resumir a rutura e encenar os seis meses de silêncio — é a forma mais comum de errar nas duas direções.

O caso em que contar é a escolha certa

Há informações que o leitor precisa de ter mas que não vale a pena viver em cena: o trajeto de um sítio para outro, uma rotina consolidada, um pano de fundo histórico ou político que serve de contexto. Encená-las por princípio, só porque "show don't tell", dilui o ritmo sem acrescentar nada — o leitor não sai daí com uma compreensão mais profunda, só mais cansado. Nestes casos, contar não é preguiça: é a escolha tecnicamente certa, porque deixa espaço e atenção aos momentos que, esses sim, o merecem.

Perguntas frequentes

Como sei se uma cena devia ser mostrada ou resumida?

Pergunta-te se, depois desse momento, a personagem (ou o leitor) sabe ou sente algo que antes não sabia ou não sentia. Se a resposta for sim, é provável que mereça uma cena a sério, com ação e diálogo. Se o momento só serve para passar o tempo ou ligar dois acontecimentos já claros, um resumo de uma ou duas frases faz o mesmo trabalho sem abrandar o livro.

"Mostrar" significa evitar por completo adjetivos como "triste" ou "zangado"?

Não: o problema não é a palavra em si, é quando ela substitui inteiramente a experiência que devia acompanhar. Podes escrever que uma personagem "estava furiosa" e depois mostrar o que faz com essa fúria — é muitas vezes mais eficaz do que eliminar o adjetivo e esperar que a ação sozinha chegue. O defeito não é nomear uma emoção, é nomeá-la sem nunca a pôr em cena em ponto nenhum do livro.

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