A lista de autorrevisão antes de dar a ler
Os beta-leitores são um recurso precioso e limitado: uma pessoa que lê com atenção um romance inteiro não o faz dez vezes. Enviar um manuscrito cheio de buracos evidentes significa receber comentários sobre os buracos evidentes, e perder aqueles que só um olhar externo consegue detetar. É para isso que serve uma lista de autorrevisão: chegar à leitura dos outros com os problemas "visíveis por dentro" já resolvidos.
Antes de começar: deixar repousar
Reler no dia a seguir a acabar o rascunho não funciona: ainda tens na cabeça o livro que querias escrever, e lês esse em vez daquele que está na página. Deixa passar pelo menos algumas semanas. Depois relê tudo de seguida, de preferência num formato diferente daquele em que escreveste: um ficheiro descarregado, uma impressão, outro dispositivo.
1. A história no seu conjunto
- Consegues resumir o livro em duas frases, com um protagonista, um objetivo e um obstáculo?
- A pergunta central da história fica clara nos primeiros capítulos?
- Cada viragem importante é consequência do que aconteceu antes, e não uma coincidência?
- O final responde à pergunta que o livro colocou?
- As subtramas fecham-se, ou pelo menos ficam abertas de propósito?
2. As personagens
- O protagonista quer algo concreto, e percebe-se?
- No fim é diferente do que era no início, e a mudança é motivada?
- O antagonista, ou a força que se opõe, tem razões compreensíveis?
- Cada personagem secundária tem uma função, ou alguma se pode fundir com outra?
- Nomes, idades, aspeto e pormenores mantêm-se coerentes do princípio ao fim?
3. As cenas e o ritmo
- Cada cena muda alguma coisa? Se a tirares, a história perde uma peça?
- As cenas começam o mais tarde possível e acabam assim que o essencial está claro?
- Há trechos em que tu próprio, ao reler, tens vontade de saltar?
- A cronologia aguenta-se: dias, estações, idades, distâncias?
- As informações de contexto chegam quando são precisas, e não em blocos?
4. As frases
Este nível fica para o fim, e antes dos beta-leitores basta uma passagem ligeira:
- gralhas e repetições evidentes;
- diálogos lidos em voz alta, para ouvir os que soam falsos;
- palavras-tique que voltam demasiadas vezes;
- frases que tiveste de ler duas vezes para perceber.
O trabalho fino de estilo pode esperar: se um beta-leitor te convencer a reescrever um capítulo, o polimento feito antes perder-se-ia.
O que deixar aos leitores
Uma lista não substitui o olhar externo: liberta-o. Há perguntas a que não consegues responder sozinho, porque já conheces a história. Onde aborrece? Onde confunde? Em que é que não se acredita? Quem fica no coração? São essas as perguntas a fazer aos beta-leitores, e as respostas serão muito mais úteis se antes não tiverem de tropeçar nas gralhas.
Na NovLore
Para releres num formato diferente daquele em que escreveste, descarrega o manuscrito em Word ou em HTML: mudar o aspeto da página ajuda a ver o texto com outros olhos. Antes de dar a ler, guarda também uma versão de cada capítulo a partir do histórico: se os comentários levarem a reescritas, terás sempre o texto que os beta-leitores leram.
Perguntas frequentes
Quanto tempo devo deixar passar antes de reler?
Quanto mais passar, melhor vês o texto. Um mínimo razoável são duas ou três semanas; muitos autores esperam um mês ou mais, trabalhando entretanto noutra coisa.
Tenho de corrigir tudo antes de dar a ler?
Não. Tens de tirar os problemas evidentes, não deixar o livro perfeito. Um manuscrito demasiado polido torna mais dolorosas as intervenções profundas quando chegam os comentários.
E se a lista revelar um problema enorme?
Melhor agora do que depois. Resolve primeiro os problemas de história e personagens, e dá a ler só quando a estrutura se aguentar: comentários sobre as frases de um capítulo que vais mudar não servem.