O medo do julgamento e escrever mesmo assim
Muita gente que não consegue terminar um texto não tem um problema de ideias ou de tempo: tem na cabeça alguém que lê enquanto escreve, e esse alguém torce o nariz. É uma das formas mais comuns e menos contadas do bloqueio, e enfrenta-se com medidas práticas, não com incentivo.
O leitor imaginário por cima do ombro
Quando escreves, muitas vezes não estás sozinho: há um leitor imaginário que avalia cada frase. Pode ter o rosto de um crítico, de um pai, de um antigo professor, de um amigo que escreve melhor do que tu. Não importa quem é: o seu efeito é que escreves já na defensiva, escolhendo as palavras para não seres repreendido em vez de para dizer o que queres dizer.
O primeiro passo é dar por que ele está lá. Muitos escritores bloqueados nunca focaram que estão a escrever para agradar a uma pessoa precisa, muitas vezes ausente e às vezes nem sequer viva.
Escrever primeiro para ninguém
O primeiro rascunho funciona melhor se o escreveres para ninguém: não para um editor, não para os beta leitores, não para o leitor imaginário. Só para chegar ao fim da história e ver que forma tem. Dizer a ti próprio explicitamente "isto não o lerá ninguém até eu decidir" tira ao leitor imaginário o direito à palavra.
É uma ficção útil, não uma mentira: o rascunho vai tornar-se público, mas não agora, e não tem de o ser para ser escrito.
Separar a escrita da partilha
O momento em que se escreve e o momento em que se mostra o texto são dois trabalhos diferentes, com estados mentais diferentes. Misturá-los — escrever a pensar já nas reações — paralisa ambos. Mantém as duas fases distintas: primeiro deita-se abaixo, depois, num momento separado e com outra cabeça, decide-se o que dar a ler e a quem.
Isto vale também dentro da revisão: primeiro arranja-se para si mesmo, depois olha-se com os olhos de um leitor.
O medo de que alguém se reconheça
Uma forma específica deste medo diz respeito às pessoas reais: o receio de que um familiar ou um amigo se reconheça numa personagem e leve a mal. É um receio legítimo, mas na fase de primeiro rascunho é prematuro. Escreve a cena como precisas dela; a questão de quanto e como modificar as referências reconhecíveis enfrenta-se na revisão, a sangue-frio, quando sabes mesmo o que fica no livro.
Antecipar essa preocupação enquanto escreves faz-te autocensurar justamente o material que muitas vezes é o mais vivo.
O medo não se vai: escreve-se com ele
Esperar por "já não ter medo do julgamento" para escrever a sério significa nunca começar. Muitos escritores publicados convivem com esse medo em cada livro; só aprenderam a não o deixar guiar as decisões. O objetivo realista não é a ausência de medo, é escrever enquanto ele está lá — baixando a voz do leitor imaginário o suficiente para ouvir a tua.
Decidires tu quando e a quem o mostrar
Saber que tens o controlo sobre quando e a quem o texto se torna visível ajuda a escrever mais livremente. No NovLore o manuscrito é privado por defeito, e a partilha com um beta leitor é uma ligação que geras tu, com prazo e revogável a qualquer momento: ninguém lê até tu decidires, e podes fechar o acesso quando quiseres. O rascunho continua a ser um espaço teu até escolheres o contrário.
Perguntas frequentes
O medo do julgamento é a mesma coisa que o perfecionismo?
São parentes mas distintos. O perfecionismo é a exigência de que o texto seja impecável antes de avançar; o medo do julgamento é o receio da reação de alguém. Muitas vezes convivem: lima-se ao infinito porque se teme o julgamento. Enfrentar um ajuda com o outro.
Devo dizer aos beta leitores que é um primeiro rascunho?
Sim, e convém ser específico sobre o que procuras: "diz-me se a história se sustenta, não corrijas as frases". Um leitor que sabe ter em mãos um rascunho dá um feedback diferente, e mais útil, do que um que pensa ler um texto acabado.
E se o julgamento negativo depois chega mesmo?
Chegará, mais cedo ou mais tarde, e faz parte do ofício. A diferença é quando chega: um julgamento sobre um texto que escolheste mostrar, depois de o teres acabado e revisto, gere-se. Um julgamento imaginário sobre um texto ainda não escrito bloqueia e mais nada.