O narrador não fiável: como o construir
Estamos habituados a acreditar em quem conta. Se o narrador diz que a casa era tranquila, imaginamos uma casa tranquila. O narrador não fiável joga precisamente com essa confiança: conta uma história e o leitor, pouco a pouco, percebe que as coisas não são bem assim. É uma das técnicas mais fascinantes da ficção, e também uma das mais fáceis de estragar.
Tipos de narrador não fiável
Nem todos os narradores não fiáveis são mentirosos. As formas mais comuns:
- o que mente: esconde a verdade de propósito, para se proteger ou manipular;
- o que se ilude: acredita sinceramente numa versão dos factos que lhe convém;
- o que não compreende: uma criança, uma pessoa ingénua, alguém sem ferramentas para interpretar o que vê;
- o que recorda mal: o tempo, o trauma ou a nostalgia deformaram-lhe a memória;
- o de perceção alterada: doença, substâncias, obsessão.
Cada um produz um tipo diferente de distância e um efeito diferente no leitor.
O centro da técnica: a distância
O narrador não fiável funciona quando o leitor sente uma distância entre o que é dito e o que acontece. Se o leitor nunca dá por isso, não há falta de fiabilidade: há apenas um narrador normal e um final que parece uma burla.
O leitor tem de poder dizer, mais cedo ou mais tarde: "Ah, não ma contou como foi." E, ao reler, tem de descobrir que as pistas estavam lá.
Como semear as pistas
- Contradições: o narrador diz uma coisa e pouco depois conta outra que não bate certo.
- Reações das outras personagens: todos tratam o narrador de uma forma que não corresponde à imagem que ele dá de si.
- Pormenores que o narrador não comenta: uma garrafa vazia, uma carta nunca aberta, um nome que evita.
- Excesso de justificações: quem insiste demasiado na própria inocência levanta dúvidas.
- Buracos no tempo: saltos precisamente nos momentos que mais importariam.
Uma razão para mentir
A falta de fiabilidade tem de nascer da personagem, não da vontade do autor de surpreender. Porque é que este narrador distorce a história? Por culpa, por vaidade, para proteger alguém, porque não consegue aceitar o que aconteceu? Quando a razão é clara, as distorções tornam-se coerentes e revelam a personagem mais do que qualquer descrição.
O risco da reviravolta gratuita
O erro mais comum é usar o narrador não fiável só para o final surpresa: todo o livro contado de forma linear e a última página revela que era tudo falso. O leitor não se sente surpreendido, sente-se enganado. A revelação funciona quando confirma suspeitas que o leitor já tinha, não quando as inventa do nada.
Na primeira pessoa, mas não só
O narrador não fiável é mais natural na primeira pessoa, porque o leitor está dentro de uma única cabeça. Mas também se consegue na terceira pessoa próxima: a narração adota tão de perto o ponto de vista da personagem que partilha as suas ilusões.
Perguntas frequentes
Todos os narradores na primeira pessoa são um pouco não fiáveis?
Em certo sentido sim, porque ninguém vê tudo. Mas fala-se de narrador não fiável quando a distorção faz parte do desenho do livro e o leitor é convidado a reparar nela.
Quando deve o leitor dar por isso?
Depende do efeito que procuras. Alguns romances revelam-no cedo e constroem a tensão sobre a dúvida; outros deixam crescer as suspeitas até uma confirmação final. Em ambos os casos, as pistas têm de lá estar desde o início.
Um narrador não fiável pode ser simpático?
Pode, e é muitas vezes o caso mais interessante: o leitor afeiçoa-se a ele precisamente enquanto descobre que não lhe conta tudo.