O passado da personagem: quanto é preciso

· Roberto Sirolo · 5 min de leitura

Toda a personagem tem um passado, mas nem todo o passado merece acabar na página. O passado é útil na medida em que explica algo do presente: porque é que uma personagem reage de forma desproporcionada a um pormenor aparentemente pequeno, porque evita certas situações, porque deseja o que deseja. O problema começa quando o autor conhece o passado de uma personagem melhor do que o leitor precisa de conhecer, e tenta transferir todo esse conhecimento para a página.

O passado é uma ferramenta, não uma dívida a saldar

Muitos manuscritos tratam o passado do protagonista como uma informação devida ao leitor: mais cedo ou mais tarde tem de ser contada, e o capítulo dois ou três parece o sítio certo. O resultado é muitas vezes um bloco — um flashback extenso ou um resumo — que trava a história para dar um contexto que, nesse ponto, o leitor ainda não tem motivos para querer.

O passado funciona melhor como uma ferramenta disponível, a usar quando serve para explicar algo que está a acontecer agora, não como uma dívida que o autor sente que tem de saldar por inteiro e cedo.

A pergunta certa: porque é que o leitor precisa de saber agora

Antes de escrever uma cena do passado, vale a pena perguntar o que muda na compreensão do leitor ao sabê-lo nesse ponto do livro. Se a resposta é "nada em concreto, mas é interessante na mesma", provavelmente ainda não é a altura — ou nem é preciso de todo.

O passado que funciona chega quando o leitor já se fez uma pergunta: porque é que ela não confia em ninguém? Porque é que ele não consegue pedir ajuda? Nesse ponto a informação responde a uma curiosidade já acesa, em vez de criar uma que o leitor não tinha.

Dosear em vez de despejar

A técnica mais fiável não é o grande flashback explicativo, mas a dosagem: um pormenor aqui, uma reação ali, uma fala que alude sem explicar. O leitor monta o quadro peça a peça, e essa é uma experiência mais envolvente do que recebê-lo tudo de uma vez.

Uma frase como "havia anos que não tocava no telemóvel ao domingo à noite" diz mais, em menos espaço, do que um parágrafo que explica porquê. A pergunta que fica em aberto — porque justamente ao domingo? — prende mais o leitor do que uma resposta imediata.

O trauma como causa, não como explicação total

Quando o passado inclui um episódio doloroso — um luto, um abandono, uma violência —, o risco é deixá-lo tornar-se a única chave de leitura da personagem, como se esse episódio explicasse cada uma das suas escolhas no resto do livro. As pessoas reais são mais inconsistentes do que isso: reagem de forma diferente consoante o dia, contradizem a sua própria história, às vezes curam-se de maneiras que nada têm a ver com o episódio original.

Um passado doloroso funciona melhor como uma causa entre outras, não como uma explicação total que reduz a personagem a "aquela a quem aconteceu aquilo".

O flashback: quando é a forma certa

Às vezes o passado precisa de ser mostrado em cena, não apenas sugerido. Nesses casos o flashback é a ferramenta certa, mas com duas condições: tem de ter a mesma tensão e a mesma escrita de uma cena presente — não um resumo noutro tom — e tem de estar ancorado a um motivo preciso no presente que o justifique ali, e não noutro sítio.

Um flashback desligado do ritmo da história, colocado porque "o leitor tinha de saber", sente-se como uma interrupção mesmo quando o conteúdo é interessante.

Quanto passado é mesmo preciso: o teste da cena seguinte

Um teste prático para saber se um fragmento do passado é necessário: pergunta-te se, sem ele, a cena seguinte funcionaria na mesma. Se o comportamento da personagem continua compreensível mesmo sem essa explicação — talvez misterioso, mas não incoerente —, o passado é um enriquecimento facultativo, a dosear com parcimónia. Se sem esse fragmento de passado o leitor perdesse o fio de porque a personagem age assim, então é necessário, e há que encontrar a forma mais económica de o dar.

Manter o passado das personagens à mão

Mesmo quando o passado de uma personagem nunca chega por inteiro à página, precisas dele para escrever com coerência — para saber o que essa personagem evitaria dizer, que temas a incomodam, o que a faria reagir de forma desproporcionada. No NovLore a ficha de cada personagem no painel guarda este material à parte do texto: podes anotar o passado completo para ti próprio, e decidir cena a cena quanto dele deixar aflorar, sem que esse conhecimento tenha de se traduzir em páginas de explicação.

Perguntas frequentes

Tenho de conhecer todo o passado de uma personagem antes de escrever?

Não é necessário, e para muitos autores é contraproducente: arrisca-se a tornar-se tempo gasto longe da história real. Basta saber o suficiente para tornar coerentes as suas reações nas cenas que estás a escrever; o resto podes descobri-lo pelo caminho, quando for mesmo preciso.

Com que antecedência no livro posso revelar o passado principal do protagonista?

Não muito cedo. Se o leitor recebe a explicação antes de se ter feito a pergunta, a informação ainda não tem peso emocional. É melhor deixar a curiosidade acumular-se durante alguns capítulos antes de a satisfazer, mesmo que só em parte.

Um flashback interrompe sempre o ritmo?

Não necessariamente, mas é um risco real. Um flashback curto, escrito com a mesma tensão de uma cena presente e colocado num ponto em que o leitor quer mesmo saber o que aconteceu, pode funcionar bem. O problema surge quando é longo, morno, ou chega antes de o leitor sentir essa necessidade.

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