Coerência interna: evitar furos de enredo
Um furo de enredo não é um pormenor esquecido: é um ponto em que o leitor deixa de acreditar na história. "Mas como é que ele sabia?" é a frase que nenhum autor quer ouvir, e quase sempre nasce de um problema de coerência interna que se podia intercetar na revisão.
Furo de enredo ou mistério querido?
Nem tudo o que o leitor não sabe é um furo. A diferença:
- Um mistério querido é uma pergunta que a história põe e à qual, mais cedo ou mais tarde, responde (ou decide conscientemente não responder, e o leitor aceita).
- Um furo de enredo é uma pergunta que a história levanta sem querer e deixa cair: uma contradição, um passo lógico saltado, uma explicação em falta onde faria falta.
O teste: se um leitor atento te pedisse contas desse ponto, terias uma resposta que esteja no livro? Se sim, é um mistério. Se a resposta é "não tinha pensado nisso", é um furo.
As causas mais comuns
- Informação impossível. Uma personagem sabe algo que não podia saber: não estava lá, ninguém lhe disse, não havia vestígios.
- A coincidência que salva. O protagonista está encurralado e chega por acaso a ajuda certa. Uma coincidência que mete uma personagem em apuros é aceitável; uma que a tira de lá é um furo.
- A pista por pagar. Semeias um objeto, uma frase, uma personagem com ênfase, e depois nunca voltam. O leitor registou-os e espera.
- Tempos e distâncias que não batem certo. Uma viagem que dura um dia à ida e três à volta sem motivo; uma personagem que envelhece dois anos em seis meses de história.
- O comportamento fora da personagem. Alguém age contra tudo o que sabemos dele só porque o enredo precisa daquela jogada.
- A regra do mundo violada. Num fantasy, um poder que a meio do livro faz algo antes declarado impossível.
As verificações a fazer na revisão
Não se caçam relendo "com atenção": caçam-se com passagens dirigidas, uma por tipo de problema.
- Quem sabe o quê, e desde quando. Para cada revelação importante, verifica que a personagem que a usa teve uma fonte plausível, e anota em que cena a obteve.
- A caça às pistas. Faz uma lista de todos os objetos, nomes e pormenores introduzidos com ênfase. Ao lado de cada um escreve onde é pago. As linhas vazias são o problema.
- A linha do tempo. Põe os acontecimentos por ordem com datas ou "dias desde o início". Verifica durações de viagens, idades das personagens, estações, fases da lua se as nomeias.
- O móbil de cada viragem. Para cada escolha importante de uma personagem, verifica que nasce do que sabemos dela, não do que o enredo precisa.
- As regras do mundo. Enumera o que é possível e o que não é. Depois procura cada cena em que esses limites são tocados.
A ferramenta que os previne
Grande parte destes furos não se abriria se os factos fixos da história vivessem num só sítio. Uma ficha por personagem com "o que sabe e desde quando", uma cronologia com as datas, uma lista das regras do mundo: mantê-los atualizados enquanto escreves custa cinco minutos por sessão e elimina na origem as contradições mais frequentes.
Perguntas frequentes
Todo o furo de enredo tem de ser tapado?
Não. Alguns tapam-se com uma linha de diálogo, outros aceitando uma pequena inverosimilhança que nenhum leitor notará. O critério é a visibilidade: um furo numa cena chave tem de ser resolvido, um num pormenor de fundo pode muitas vezes ficar.
Como vejo os furos se já conheço toda a história?
Não os vês sozinho a frio: por isso são precisas as passagens dirigidas com uma lista escrita, e por isso é preciso um leitor externo. Quem conhece o enredo "preenche" os saltos sem dar por isso.
Os leitores-beta servem para isto?
Sim, é um dos seus melhores usos. Pede-lhes explicitamente que marquem cada "mas como...?" enquanto leem, sem parar para pensar: a reação a quente é o dado de que precisas.
Uma reviravolta pode contradizer o que o leitor sabia?
Pode virar a interpretação, não os factos. Se, ao reler as cenas anteriores à luz da revelação, tudo se aguenta, é uma boa reviravolta. Se algo já não bate certo, é um furo disfarçado de surpresa.
Quão grave é uma coincidência?
Depende de onde cai. No início, para acender a história, é quase obrigatória e o leitor perdoa-a. A meio ou no fim, para resolver um problema, é quase sempre um furo: o protagonista tem de merecer a saída.