A cronologia da história no romance
Uma personagem parte no outono, viaja "uns dias" e chega em pleno inverno com a neve alta; depois volta no mesmo tempo e encontra os campos em flor. Erros assim não se veem a escrever: só se veem pondo os acontecimentos em fila numa cronologia.
Para que serve
A cronologia é o relógio interno da história, distinto da ordem em que o leitor encontra os acontecimentos. Serve para três coisas:
- Coerência das durações. Quanto dura mesmo aquela viagem, aquele cerco, aquela gravidez, aquela investigação.
- Idades e aniversários. Que idade tem cada personagem em cada cena, quantos anos separam dois irmãos, quanto tempo passou desde o antecedente.
- Ambiente. Estação, horas de luz, clima, feriados: pormenores que o leitor usa para se orientar e que, se saltam, o desorientam.
Datas absolutas ou dias relativos?
Depende do tipo de livro, mas a solução mais flexível é ter as duas coisas.
| Método | Quando convém |
|---|---|
| Dias desde o início ("Dia 1, Dia 6, Dia 40") | sempre: é o mais rápido para calcular durações |
| Datas reais (12 de março, 3 de abril…) | se o livro as nomeia, ou se conta a estação |
| Idades das personagens em coluna | se há menores que crescem ou saltos temporais |
O registo base é uma tabela: uma linha por cena ou capítulo, colunas para "dia desde o início", "data", "lugar", "quem está", "quanto passou desde a cena anterior".
Como se constrói
- No fim do primeiro rascunho, não antes: percorre os capítulos e atribui a cada um um "dia desde o início", ainda que aproximado.
- Assinala os intervalos explícitos: sempre que o texto diz "três semanas depois", "na manhã seguinte", "aquele verão".
- Calcula as durações das viagens e compara-as: dois trajetos sobre a mesma distância devem durar o mesmo, salvo motivo.
- Acrescenta a coluna de idade e fá-la correr: se uma personagem tem 16 anos no capítulo 2 e a história dura oito meses, no capítulo 40 tem ainda 16 ou 17, não 15.
- Sobrepõe as estações: se partes em setembro e a história dura quatro meses, o último ato é no inverno. A paisagem deve sabê-lo.
Flashbacks e tramas paralelas
- Os flashbacks vão na cronologia no seu tempo real, com uma nota sobre onde o leitor os encontra. Serve para verificar que o que a personagem recorda é coerente com a sua idade de então.
- As tramas paralelas (dois grupos de personagens em lugares diferentes) vão no mesmo eixo dos "dias desde o início": é a única forma de reparar que, quando os dois fios se reencontram, para um passaram dez dias e para o outro vinte.
Quando o tempo da história não é linear
Num romance com capítulos fora de ordem, ou com várias linhas temporais, a cronologia torna-se a ferramenta de trabalho principal: escreve-se primeiro a sequência real dos acontecimentos, depois decide-se em que ordem apresentá-los. Sem a primeira, a segunda torna-se ingerível à terceira revisão.
Perguntas frequentes
Construo a cronologia antes ou depois de escrever?
O mínimo é depois do primeiro rascunho, como ferramenta de revisão. Quem escreve com esquema pode esboçá-la antes, mas há que reverificá-la sobre o texto real: a escrita move sempre alguma duração.
Quão precisa deve ser?
Tão precisa quanto o livro. Se o texto nunca nomeia datas e não conta as estações, bastam os "dias desde o início" para controlar as durações. Se o livro é histórico ou menciona festas, aniversários, eventos reais, são precisas as datas verdadeiras.
Como giro um romance que abrange trinta anos?
Com dois níveis: uma cronologia "larga" por ano (o que acontece em 1971, em 1978…) e cronologias "estreitas" a dias só para os períodos que o livro conta em detalhe. Não é preciso datar ao dia os vazios entre um bloco e outro.
A cronologia mostra-se ao leitor?
Normalmente não: é uma ferramenta interna. Alguns romances com muitas linhas temporais incluem uma pequena tabela cronológica em apêndice, mas é uma escolha editorial, não uma obrigação.
E se descobrir um erro de tempo com o livro terminado?
Quase sempre corrige-se mudando uma referência vaga em vez de uma precisa: transformar "três dias depois" em "uns dias depois" resolve a maioria dos conflitos sem tocar nas cenas.