Escrever a ação no guião

· Roberto Sirolo · 4 min de leitura

Entre uma fala e outra, num guião, estão as linhas de ação: a descrição do que acontece no ecrã. É a parte em que quem vem da ficção arrasta mais hábitos que aqui não funcionam, porque o guião não é um texto que se lê pelo prazer da prosa: é um documento de trabalho que tem de comunicar depressa o que o espectador vai ver.

Só o que a câmara filma

A regra fundamental das linhas de ação é que descrevem apenas o que se vê e se ouve: gestos, movimentos, expressões visíveis, sons, objetos, ambientes. Não descrevem o que uma personagem sente por dentro, o seu passado, os seus pensamentos, as suas intenções não manifestadas.

"O Marco está destruído pela culpa do que aconteceu dez anos antes" não é ação: não há maneira de o filmar. "O Marco fixa a fotografia. Vira-a com a face para baixo" é ação: mostra o mesmo estado interior através do que se vê. O trabalho do argumentista é encontrar o gesto visível que comunica o invisível.

No presente, em blocos curtos

As linhas de ação escrevem-se no presente do indicativo: "entra", "vira-se", "pega no copo". E partem-se em blocos curtos, muitas vezes de uma ou duas linhas, separados por espaços. Um parágrafo longo de ação abranda a leitura e esconde os momentos importantes dentro de um muro de texto.

Partir a ação em blocos tem também uma função de encenação implícita: cada bloco tende a corresponder a um plano ou a um movimento, e o comprimento dos blocos comunica o ritmo. Blocos curtos e secos leem-se depressa; o olho desliza, e essa velocidade é a informação que diz ao leitor "esta cena é agitada".

Verbos concretos, poucos adjetivos

A ação forte assenta nos verbos: "agarra", "arremessa", "sussurra" dizem mais do que "pega com violência", "atira com força", "diz em voz baixa". Um verbo preciso elimina a necessidade do advérbio.

Os adjetivos usam-se com parcimónia, e só quando acrescentam uma informação visível que conta: "uma sala despida" diz algo, "uma sala melancólica e cheia de memórias" descreve uma atmosfera que a cenografia rende à sua maneira e que não ajuda o leitor a ver a cena.

A velocidade de leitura faz parte do texto

No guião, a velocidade a que se lê uma página é uma informação deliberada. Uma cena de ação escrita em blocos muito curtos, com frases de poucas palavras, lê-se em segundos, e essa sensação de rapidez é o que comunica o ritmo da cena a quem lê — um produtor, um realizador, um ator. Uma cena de diálogo lento e denso lê-se mais devagar, e está bem assim.

Escrever a ação sem pensar na velocidade de leitura é como escrever música sem pensar no tempo: o texto funciona na página mas não transmite o ritmo que terá no ecrã.

O que não pôr nas linhas de ação

Fora das linhas de ação: os pensamentos das personagens, o seu passado, as suas motivações não visíveis, as indicações de realização demasiado detalhadas ("grande plano fechado sobre..."), a descrição extensa da atmosfera. Também os nomes de objetos que nunca entram em cena e a informação de worldbuilding que o público não vai ver. Toda a linha de ação que descreve algo que o espectador não vai percecionar é uma linha escrita para o leitor errado.

Trabalhar as linhas de ação na revisão

As linhas de ação enxugam-se quase sempre na revisão: no primeiro rascunho tendem a ser demasiado densas, com descrições de romance que abrandam a página. Reler uma cena a cronometrar quanto se demora a lê-la, e compará-la com o ritmo que devia ter, ajuda a ver onde cortar. No NovLore a estrutura do texto em cenas e o histórico de versões vivem no mesmo sítio, por isso podes enxugar a ação de uma cena e recuperar a versão anterior se cortaste algo que era preciso.

Perguntas frequentes

Posso escrever o que uma personagem pensa nas linhas de ação?

Não, não no sentido de descrever diretamente um pensamento interior. Podes, contudo, mostrar o pensamento através de um gesto visível: uma hesitação, um olhar, um objeto pegado e pousado. O trabalho é traduzir o interior em visível.

Quão longas podem ser as linhas de ação?

O mais curtas possível sem deixar de ser claras. Blocos de uma ou duas linhas são a norma; um bloco de cinco ou seis linhas seguidas é quase sempre sinal de que a ação tem de ser partida ou enxugada. O comprimento dos blocos comunica o ritmo, por isso deve ser controlado como se controla o ritmo.

Devo indicar os planos nas linhas de ação?

Em geral não, a menos que o plano seja estruturalmente necessário à cena. Os guiões de desenvolvimento tendem a deixar as decisões de rodagem ao realizador: partir a ação em blocos já sugere uma montagem sem ser preciso declará-la.

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