O título e a contracapa
O título e a contracapa são as primeiras palavras que um leitor encontra, e muitas vezes as únicas em que baseia a decisão de comprar. E no entanto são também os textos que os autores tendem a escrever primeiro, quando o livro é ainda uma ideia, e a nunca mais rever. Devem, pelo contrário, escrever-se por último, quando já sabes que livro fizeste — não o que pensavas fazer no início.
O título: memorável, não descritivo
Um bom título não explica o enredo, fica na cabeça. "A história de uma mulher que procura o irmão desaparecido na América do Sul" é descritivo e esquecível; os títulos que funcionam são quase sempre mais curtos, mais evocativos, mais estranhos — uma frase que desperta curiosidade sem esclarecer tudo.
O título também comunica o género antes de o leitor ler uma linha: certas construções sinalizam thriller, outras romance literário, outras fantasia. Um título que sinaliza o género errado atrai os leitores errados, que depois deixam críticas dececionadas — não porque o livro seja mau, mas porque não era o que o título prometia.
Testar o título: pronunciável, pesquisável, não já usado
Três verificações práticas antes de fixar um título. Pronuncia-se sem hesitar quando o dizes em voz alta? Se alguém o ouve num podcast, consegue pesquisá-lo e encontrá-lo, ou é demasiado genérico para emergir entre mil resultados? Já existe um livro muito conhecido com o mesmo título, no mesmo género? Os títulos não se podem proteger legalmente, mas partilhar um com um best-seller recente significa competir pela atenção numa batalha já perdida.
A contracapa não resume: vende a promessa
O erro mais comum na contracapa é contar demasiado: metade do livro comprimida em três parágrafos, com acontecimentos do segundo ato e às vezes alusões ao final. A contracapa não é uma sinopse — essa é para os agentes, não para os leitores. A contracapa apresenta a promessa do livro e para.
A estrutura que funciona quase sempre: uma ou duas frases que apresentam o protagonista e a sua situação normal, uma frase que introduz o elemento que rompe essa normalidade, uma frase que sobe a fasquia — o que arrisca perder, o que tem de enfrentar. Depois fecha-se, muitas vezes sobre uma pergunta implícita ou uma ameaça por resolver. O que acontece a seguir, o leitor descobre comprando o livro.
O tom da contracapa deve corresponder ao tom do livro
Uma contracapa escrita num registo irónico para um romance sombrio, ou solene para uma comédia, trai o leitor duas vezes: atrai-o com uma promessa e depois dececiona-o com um livro diferente. A contracapa é uma pequena amostra da voz do livro: se o romance é tenso e seco, a contracapa também o é; se é lírico, a contracapa pode dar-se ao luxo de uma imagem a mais.
O que não pôr na contracapa
Fora da contracapa: os nomes de demasiadas personagens secundárias, os detalhes de subtramas, as explicações de worldbuilding, as datas e os lugares que não servem para despertar curiosidade e, sobretudo, tudo o que acontece depois de aproximadamente o primeiro terço do livro. Cada elemento a mais dilui a promessa central, e uma contracapa que o leitor não consegue seguir na livraria é uma contracapa que não vende.
Escrevê-los por último, revê-los depois da edição
Um título e uma contracapa escritos antes do rascunho descrevem quase sempre um livro diferente do que acabaste por escrever. O momento certo é depois da edição, quando o enredo é definitivo, o protagonista é o verdadeiro, o tom está assente. No NovLore o texto do livro, a sinopse e os materiais de apresentação podem viver no mesmo sítio que o manuscrito, por isso quando revês o título ou a contracapa tens à frente o livro real — não a versão que imaginavas meses antes.
Perguntas frequentes
Quanto deve medir uma contracapa?
Geralmente entre 100 e 200 palavras para um romance. Mais curta arrisca não dar o suficiente para decidir; mais longa perde o leitor antes do fim. A extensão exata conta menos do que a estrutura: promessa, rutura, o que está em jogo, e uma paragem antes do final.
Posso mudar o título depois de começar a promover o livro?
Pode-se, mas tem um custo: os links, as críticas e as menções já publicadas apontam para o título antigo. Se tens uma dúvida séria sobre o título, é muito melhor resolvê-la antes do lançamento do que depois. Por isso convém testá-lo — em leitores, não só em ti — antes de o tornar público.
A contracapa deve revelar o "gancho" principal da história?
Deve revelar a premissa — a situação que põe tudo em movimento — mas não a sua resolução nem as reviravoltas seguintes. O gancho da contracapa é a promessa; o prazer de descobrir como essa promessa se desenvolve é o que o leitor compra.