Tramas secundárias: quantas precisas e como usá-las
As tramas secundárias são o instrumento mais fácil de usar mal num romance: parecem inofensivas, parecem apenas "mais material", e acabam por multiplicar-se até o leitor já não se lembrar por que razão andava a seguir três histórias diferentes.
Para que servem mesmo as tramas secundárias
Uma trama secundária que funciona faz uma coisa precisa: coloca o protagonista perante uma versão diferente do seu próprio conflito central, vista de um ângulo diferente. Se o romance conta a dificuldade de confiar em alguém, uma trama secundária eficaz mostra outra personagem a enfrentar o mesmo problema e a chegar a um desfecho diferente — um contraste que ilumina a escolha do protagonista em vez de distrair dela.
As tramas secundárias que não funcionam, pelo contrário, existem por conta própria: seguem uma personagem secundária de que o autor gosta, enchem um mundo que parece vazio, ou dão "algo para fazer" durante um momento morto da trama principal. São as primeiras candidatas ao corte na fase de edição, porque o leitor as sente como tempo roubado à história que está realmente a seguir.
Quantas são precisas (e o risco de exagerar)
Não existe um número fixo, mas a maioria dos romances que sustentam bem a estrutura usa duas ou três tramas secundárias, não mais. Cada trama secundária acrescentada além desse número não aumenta a riqueza do romance na mesma proporção: aumenta o risco de o leitor perder o fio de que história está a seguir naquele momento.
| Número de tramas secundárias | Efeito típico |
|---|---|
| 1 | Corre o risco de parecer um enchimento isolado se não tocar a trama principal |
| 2–3 | O ponto em que a maioria dos romances se sustenta melhor |
| 4+ | Precisa de uma estrutura muito sólida para não dispersar a atenção do leitor |
Uma forma prática de verificar se tens tramas a mais: tenta resumir o romance em três frases. Se uma trama secundária não aparece nem num resumo longo, provavelmente pesa menos do que as páginas que ocupa fariam pensar.
Como entrelaçá-las com a trama principal
O defeito mais comum não é ter tramas secundárias, é fazê-las correr em paralelo sem nunca as cruzar. Uma trama secundária bem entrelaçada toca a trama principal em pelo menos dois pontos: uma vez a meio do livro, onde as duas histórias se influenciam mutuamente, e outra perto do final, onde o desfecho de uma pesa sobre o desfecho da outra.
A forma mais simples de conseguir este entrelaçamento é dar à trama secundária uma personagem que o protagonista encontra de qualquer forma na trama principal — não uma personagem que vive num capítulo isolado e só reaparece para a sua própria história. Se os dois fios partilham as mesmas cenas, o entrelaçamento nasce sozinho; se vivem em capítulos separados, tem de ser construído com mais cuidado.
Quando é o momento de fechar uma trama secundária
Uma trama secundária deve fechar-se antes do clímax da trama principal, nunca depois. Se o leitor ainda está à espera da resolução de uma história secundária enquanto a trama principal atinge o seu ponto mais alto, a tensão divide-se em vez de se somar. A ordem certa é: as tramas secundárias fecham-se, uma de cada vez, à medida que o romance se aproxima do final, deixando que a última tensão que resta na página seja a da trama principal.
Perguntas frequentes
Uma trama secundária pode tornar-se mais interessante do que a principal?
Pode acontecer, e é um sinal a não ignorar: por vezes significa que a trama secundária devia ser a principal, ou que a trama principal precisa de mais em jogo para aguentar a comparação.
Tenho de planear as tramas secundárias antes de escrever?
Não necessariamente em detalhe, mas é útil saber desde o início em que ponto da trama principal cada trama secundária terá de se cruzar: sem esse ponto de encontro planeado, o risco de ficarem paralelas durante todo o livro é alto.